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 15dez 

Sem título (Carta pra ti)

 

Texto de Eduardo Silveira, terceiro lugar na categoria Conto/Crônica do 7º Prêmio Joinville de Expressão Literária

Carta pra ti é uma coisa engraçada, porque o cotidiano, nossos pequenos safáris diários, reservamos pra fala, esse intervalo entre respiração e beijo que tanto gostamos de curtir e assim na hora da carta me vêm à mente coisas esdrúxulas, que porsissó não explicariam remeter uma carta que nada mais é do que meter e meter de novo palavras no papel, e aguardar cheio de ansiedade pra ver se as palavras não se perderam ou trocaram de lugar enquanto transitavam entre as agências. mas onde eu estava? Ah, sim, eu dizia que por reservar assuntos pra isso, esses pros e-mails, esses pra quando se está bêbada ou sem fôlego, ou aquele pra quando o assunto faltar, me senti sem base pra escrever, sem um mote, e foi bom porque desmotevada a cabeça fica limpa de tudo (repare que os assuntos da vida são sujos) e assim deixar o inconsciente dizer alguma coisa, e meu inconsciente tem um jeito de criança doida, por isso eu pensei em abrir essa carta já te dizendo “beijo na boca”, “viva la revolución!” ou com um verso d’uma cantiga popular qualquer só pra tentar imaginar o que vc iria pensar, o teu consciente e o teu inconsciente que, diferente da minha criança doida, deve ser um velho lógico e safado mas não vou longe nisso, que é capaz de vc escrever duas cartas, uma pra responder essa aqui toda, e outra só pra responder aquela frase, pois sei bem que você gosta de colher uns narcisos no campo das nossas savanas. Mas onde eu estava mesmo? Ah, sim, na tua casa, até semana passada, pois agora mudamos a geografia – algo que não mudará a paisagem (Este será nosso primeiro paradoxo, dará até pra se orgulhar e inclusive botar no nosso álbum de divórcio.). E como eu dizia, por dúvida de assunto e espaço para o inconsciente, acabei pensando muito e o que saiu foi só-mente esta carta metalinguística (repare como uma carta óbvia diria mais coisas, ou seja, a sinceridade/originalidade monta na burrice e sai num gostoso trote) E eu acho que vai ficar por isso mesmo, até segunda ordem da criança doida. aguardo tua resposta e essa carta vai sem assinatura pois sinto que meti e remeti meu nome várias vezes ao longo dela. creio ser desnecessário dizer (e por isso que vou dizer) que essa epístola está carregada da minha sinceridade; se nada disse de jornalístico é porque de bula não tenho nada mesmo, e você sabe que não minto, porque a mentira tem a perninha curta e magra, e bem sabe que isso não faz o meu tipo, acho que bunda firme e perna grossa é fundamental. Espero, ainda, que vc tenha cumprido o pedido que fiz na parte exterior do envelope para agitar bem antes de abrir a carta. E se, por acaso ou descaso, não o fez, não tem problema. Não seria a primeira vez.

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