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 09fev 

Por que 2018 conspira para ser o ano da inclusão

 

Claudio Garcia, vice-presidente executivo de estratégia e desenvolvimento corporativo da consultoria LHH, baseado em Nova York; a consultoria LHH tem unidade em Santa Catarina

Muitas vezes, alguns poucos fatos acontecem e são suficientes para nos tornar alertas e mudar realidades com as quais estamos tão acostumados que tratamos como normal. Foi assim quando, no ano passado, uma denúncia de assédio sexual no Uber desencadeou uma série de outras denúncias sobre várias empresas, incluindo as do Vale do Silício. Os casos mostraram que, por trás da comunidade high tech, onde está a maioria das empresas mais desejadas para se trabalhar no mundo, existem práticas de gestão inadequadas e excludentes de minorias.

No mais recente caso no Brasil, em uma festa de fim de ano de uma multinacional, uma fantasia associada a estereótipos de raça causou a demissão do presidente da empresa no país e outras duas pessoas. Não importa se o impacto para os funcionários foi justo ou não, a divulgação desses fatos está sendo suficiente para provocar discussões importantes.

Nos casos de assédio sexual, empresas estão sofrendo grande pressão da comunidade e de investidores para auditarem e reverem suas práticas empresariais no que diz respeito à igualdade de gênero e à inclusão de minorias. Talvez nada teria acontecido se a denúncia inicial não tivesse ido para a imprensa. No caso da fantasia, a esperança é que as discussões de agora possam levar empresas brasileiras no mesmo caminho, de reconhecer que existe algo errado e tomar medidas para melhorar.

A habilidade de categorizar é uma das características da inteligência humana que nos trouxe onde estamos como civilização. Mas estereótipos são, segundo John Barg, da Universidade de Nova York em uma entrevista de 1998, “categorias que foram muito além”. Assim reduzem o entendimento que temos sobre as pessoas a rótulos, atalhos equivocados, que desrespeitam a individualidade de quem está sendo julgado e tiram a oportunidade de eles se manifestarem como realmente são.

Não nascemos com estereótipos. Quando crianças, não temos a capacidade de fazer escolhas sobre o que é certo ou errado e portanto absorvemos os hábitos, costumes e valores do que observamos e ouvimos. Com o tempo, tudo isso vai para o nosso inconsciente e interfere em nossas ações. É como caminhar. Não pensamos se devemos pôr um pé à frente do outro para caminhar, simplesmente andamos. Assim, vários desses vieses inconscientes atuam em nosso dia a dia, se reforçando mutuamente na sociedade e perdurando por séculos. Fatos como os citados nos alertam que algo não está certo e muitas vezes chocam, uma vez que tudo era tão normal para muitos.
Os prejuízos sociais dos estereótipos são enormes. Mulheres são apenas 16% dos CEOs no nosso país apesar de representarem um pouco mais da metade da população. Segundo o Instituto Ethos, 55% da população brasileira é afrodescendente, mas menos de 5% estão na lista de executivos das 500 maiores empresas do nosso país. Em geral o trabalhador afrodescendente recebe pouco mais da metade do salário de um trabalhador branco na mesma posição. Não pretendo reduzir todo o nosso insucesso como nação em incluir pessoas aos estereótipos, mas não tem como negar a sua participação em manter nossas desigualdades.

2018 poderia ser um ano diferente. A economia brasileira está mostrando tendência de recuperação e inclusão econômica, que deveria ser destaque tanto quanto o crescimento do PIB. Inclusão econômica e social não acontece quando mantém uma grande parte da população excluída por causa de processos inconscientes que nos acostumamos a tratar como normais.

Em um ano eleitoral tão importante para o nosso país, as discussões sobre como iremos desenvolver sistemas sociais que criam as mesmas oportunidades para todos são essenciais para quebrarmos séculos de desigualdades. Muitos estudos mostram o impacto econômico de longo prazo que a inclusão de minorias de forma sustentável pode causar. Esses dois fatores (econômico e político), por si só, já tornam 2018 um ano importante.

Mas não tem sistema social que resolva quem as companhias irão contratar e desenvolver. Há um papel social das empresas de cuidarem para que suas práticas não sejam mantenedoras de desigualdade. Hoje elas são. Não intencionalmente (na maioria das vezes), mas como reflexo de sistemas humanos carregados de estereótipos inconscientes. A ciência e as práticas para se evitar isso existem, mas ainda são adotadas por poucas organizações. A festa à fantasia trouxe bastante frustração para os envolvidos, mas está representando uma excelente oportunidade para discutirmos o papel das organizações em manter sociedades desiguais.

 

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