Escrito por Melanie Peter, o trabalho foi o primeiro colocado da categoria Adulta - Conto e Crônica no 5o Prêmio Joinville de Expressão Literária.
“Que seria de nós sem o socorro das coisas que não existem?”
Paul Valèry
Se, perdida no tempo impreciso entre o inverno e a primavera do devaneio, eu deixasse de lado preocupações inócuas e observasse a orla das minhas fantasias, provavelmente seria capturada por uma persona cuja transparência turva diria tudo sem falar nada. Ela - deduzo -, estaria imersa em sua delicadeza ilusória de espectador-personagem e escarneceria nossa existência corpórea como se juntas teorizássemos sobre a luta contra a inevitabilidade dos acidentes no acaso.
Ensimesmada em contemplação, ela emergiria na aprendizagem do desaprendimento e eu me vestiria com aromas purpúreos, opacos de esquecimento. Imediatamente, a solidez explodida lançaria fragmentos na mistura liquefeita de nossas emoções. Motivadas pelo esforço dos inquietos, dispostos a raspar a cobertura da tinta que anuvia os sentidos convencionados, ou pela insistência dos alpinistas, animados e incansáveis na escalada íngreme rumo a cordilheira do vazio dos homens; gozaríamos em segredo a calma de quem já não espera mais nada, nem da vida, nem de si mesmo.
Na tentativa de ignorar o passado-presente, uniríamos nossas forças para abrir a porta gradeada do cativeiro. “Perdemos essa guerra”, diria ela, como se eu fosse concordar com seus balbucios solitários. “Os donos do mundo estão solidamente estabelecidos e nós não os incomodamos mais. Nossas bandeiras transformaram-se em buttons, broches, pichações, camisetas… No máximo em atitudes morais que não ultrapassam o espaço da vida íntima”.
Antes de nos jogarmos para o niilismo absoluto, decidiríamos reter as marcas coloridas que povoam a mente; uma mente não bem sua, nem bem minha, nem bem de ninguém. Na profundidade superficial dos nossos desejos, o abismo da pele tragaria intensidades e iridescências. A invasão de dragões, basiliscos, animais esféricos e espelhados transformaria o discurso abandonado em prólogo interminável. Suas emoções penderiam sórdidas sob ciclos pálidos de desesperança. Eu veria apenas riscos verde-azulados turvando sinuosidades.
O calor lânguido invadiria a extensão sem limites e a efemeridade das sombras gasosas, desenhadas na parede pelos fios da cortina, dissimulariam as estações internas conforme a dança melancólica dos prognósticos imprecisos. Contemplativas e atentas à opacidade da luz, continuaríamos arrancando palavras da mescla de sudorese provocada pelas nossas idéias. Ao tentar desengaiolar o sentido, experimentaríamos erupções de nojo contra o indecoroso psicologismo do tempo e veríamos nossas imaginações sendo ressequidas pelos pensamentos fabricados industrialmente. “Toda a vida das sociedades nas quais reinam as condições modernas de produção se anuncia como uma imensa acumulação de espetáculos”. Eu entenderia a citação, mas não descobriria quem é o seu autor. Ao mesmo tempo, escaparia para detrás das coisas visíveis como se ali pudesse encontrar um sorriso enigmático, capaz de me aquietar.
Saberíamos que em muitos pontos éramos semelhantes aos outros homens e mulheres e, no entanto, ignoraríamos o que ainda se poderá ser. Suas asas imaginárias pareceriam assombros estéticos. A lucidez chegaria cedo e viria agarrada na irrealidade, nos reencontros, e na falta de sentido da vida. “Se a gente consegue manter a sanidade e cumprir as normas e rotinas em que não acredita, é porque a lucidez faz a gente ver que a vida é tão banal, que não pode ser vivida como uma tragédia”. Eu transcreveria a frase, mas não diria que a plagiei de um filme.
Angústiadas, excluídas, presas entre um instante e outro instante e outro instante, sentiríamos a existência quente e triste. Seríamos levadas pela fantástica hipótese de que o universo nos sorri como uma criança que ainda pode brincar, mas sabe que é por pouco tempo…
E o que acontecerá depois disso tudo?
Orgulhosas por não saber, e por acreditar que ninguém sabe, aceitaríamos a perda nos enigmas do labirinto. Resvalando pensamentos em imagens mudas, eu tentaria silencia-la com o cinza do tempo, mas a persona voltaria a mim atropelada pelo espírito. Permaneceríamos ligadas por uma interrogação em aberto. “Isso é porque história é sem começou e o fim não tem caráter definitivo ?”, uma de nós gritaria. E a outra sorveria o eco.