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Entre cafés e e-books

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Em tempos de tornados reais e metafóricos, prefiro um café. Um café literal – e literário. Como os que acontecem na Bienal Internacional do Livro, que se realiza no Rio de Janeiro, neste setembro de águas e cabalas – dizem que o dia 9 foi dedicado à entrada do planeta em novas eras, ou, ainda, que significa um diabo às avessas… Creio apenas no setembro da literatura, degustada com expressos e capuccinos. E torço pelo setembro da primavera, de cores, de sol e calor.

Leio Saramago, enquanto isso, que é de milagres interiores, o que trata a vida. Aliás, as forças ocultas conspiram a favor da literatura – abro meu Orkut e a mensagem do dia diz: comece a ler um livro hoje. Tá bem, tá bem, mas o que devo ler, enquanto degusto meu autor contemporâneo preferido? Minha ligação com Saramago não é apenas com o conteúdo – mas especialmente com a forma. É espetacularmente insensata a maneira como ele escreve – não apenas nos afeta, nos invade, sangra a verve.

Espio as notícias sobre a bienal carioca, um debate sobre os chamados autores multimídias, escritores descolados, modernos, muito jovens. Muito talentosos, também. Rejeitam o rótulo de multimídias, ninguém que goste de ler lê e-books. Uma moça reclama da qualidade dos textos na internet. É tudo muito instantâneo. Quem consegue escrever três boas linhas, ao estalar os dedos? Quem pisca os olhos no tempo de produzir uma boa ideia literária? Ainda assim, há Saramago – que até há poucos dias tinha um blog.

Enquanto escolho entre prosa e verso, entre Affonso Romano de Sant’Anna e Hilda Hilst, Rubem Fonseca e meu querido Scliar, reinvento meus próprios sabores – porque me ausento de mim. Elejo a poesia. A chilena Violeta Parra, a argentina Alfonsina Storni e a portuguesa Florbela Espanca desistiram da magia da existência. São referências estéticas, são dores de vida. Escolho Florbela e seus sonetos e volto às notícias da Bienal. A literatura nos surpreende todos os dias, nos alimenta, preenche os desvãos. O destaque, nas cariocas paragens, são autores norte-americanos. Não faz mal, volto aos portugueses, certamente. Que de identidades, vive a escrita. Viva a escrita.

Ana Ribas Diefenthaeler

ana.ribas@terra.com.br

Saudades da ética engarrafada

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Outro dia, conversando com amigos sobre ética, percebemos, todos, que hoje ninguém mais se dedica à famosa filosofia de mesa de bar, tão comum em nossos tempos de estudante.  Perdeu-se – ou ficou adormecida, sem espaço para um redespertar -, aquela doce capacidade de investir preciosas horas em embates político-filosóficos que, mais do que tentar buscar respostas para as dores do mundo, alimentava o desafio de jamais deixar de perguntar.

Pelas rodas universitárias, molhávamos a palavra com alternativas bem mais baratas que os bons vinhos degustados hoje. Mas falávamos de Kant e Nietzsche – quem vai esquecer da frase “há sempre alguma  loucura no amor, mas há sempre um pouco de razão na loucura”… Invejávamos a obstinação de Guevara, xingávamos o imperialismo norte-americano, nos recusávamos  a beber Coca-Cola. E sonhávamos com um mundo mais justo. Discutíamos as diversas correntes políticas estudantis – alguns de nós, vez ou outra, perdiam o engajamento diante de paixões avassaladoras mas, passada a insensatez, lá estávamos todos, outra vez, certos de que ajudaríamos a fazer um mundo diferente – mais justo, essencialmente.

Aquele saudável pulular de ideais, que não se limitava à universidade gaúcha, mas foi uma saudável característica daqueles anos, ajudou a forjar uma linda geração de profissionais de várias áreas.  De médicos a agrônomos, veterinários a advogados, os quarentões e cinqüentões de hoje, em sua maioria, seguem destacados em suas carreiras, no mínimo, resguardando absoluta fidelidade a sua essência. Alguns, porém, se fizeram políticos – e, daí, não há como escapar, que ética política é tema de sofrimento, muito mais do que reflexão.

 Um dos aspectos bem interessantes daquele momento era a constatação de que aqueles estudantes de medicina, engenharia e agronomia liam muito, e liam de tudo, de sociologia e política à inevitável e inquietante filosofia. Jornalistas e advogados, nem se fala. Sabiam, portanto, escrever muito bem, não raro compunham lindos poemas e canções, destacavam-se nos jornais dos diretórios acadêmicos com artigos consistentes e em pleno acordo com a ortografia. E é fácil identificá-los hoje: são o terror dos representantes comerciais dos grandes laboratórios, engajam-se em causas humanitárias, não perderam a capacidade de se indignar. Tá certo, continuam bebendo, perseguem as mesas de bar – e constroem um legado de insaciável sede de vida e de justiça.

Ana Ribas Diefenthaeler

ana.ribas@terra.com.br

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