Informação é coisa séria!

Afinal, por que você escreve?

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(Entender o que nos move, nós, os escribas, é ponto de partida para crescermos na arte de escrever melhor, com mais foco e fundamento, Por que você escreve?, perguntamos aos alunos recém-entrados na disciplina de Redação Jornalística 3. As respostas vão ser publicadas neste blog. Abaixo, a da Mayara Francine Silva.)

Posso simplesmente dizer que, quando escrevo, minha alma se encontra na ponta dos dedos. Muitas vezes não parece ter saído de mim aquilo que transcrevo. É como se minhas mãos tomassem vida própria e saíssem em busca de um papel, um teclado, um lápis, uma caneta, qualquer lugar mais perto para transmitir o que penso naquele exato momento. Minha inspiração vem a qualquer hora, em qualquer lugar, de qualquer jeito. A cada linha nova que escrevo, me conheço um pouco mais. A palavra escrita é minha forma de dizer ao mundo que estou aqui, estou vendo, estou sentindo, estou presenciando, estou viva!

Com vontade extrema de contar histórias, e alma observadora de futura jornalista, alego que a escrita é o meu mal e o meu bem. Meu mal, porque se fosse possível contava tudo aquilo que vejo, seja bom ou ruim, sem medir palavras nem medo de magoar ou ferir alguém. E meu bem, porque além da paixão que devoto a ela, alego que se não existisse a escrita em minha vida eu não estaria mais respirando.

Sobre o olhar do repórter…

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…umas coisas que gostaria de compartilhar com a turma de Redação 3 do Ielusc, esta noite, quando recomeça o semestre na faculdade (Guilherme):

- repórter tem que treinar o olhar pra enxergar longe, ou diferente, da “visão convencional” e das perspectivas que lhe são apresentadas (por fontes em geral, pelo senso comum etc.);
- por outra, tem que aguçar a vista pra divisar uma realidade determinada em meio a tantos e tão diversos pontos de vista;
- precisa escolher seus “óculos” com todo o cuidado, pra que certas coisas não passem batido na pressa do cotidiano e dos fechamentos;
- além dos olhos, claro, tem que usar a cabeça e refletir sobre o que viu antes de transformar dados em matéria jornalística;
- aos poucos, vale até testar uma dose de “raio-x” pra que seu olhar atravesse o que outros tentam esconder;
- jamais, em tempo algum, pode fazer vista grossa – para o que trair a cidadania e o interesse público;
- deve, enfim,  empenhar-se para se tornar “olhos e ouvidos remotos” da população “comum”, representando-a em instâncias e ambientes aos quais nem sempre tem acesso (como recomenda Nilson Lage).

Jornalistas não são pedras

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Por Leticia Nunes. (Publicado no Observatório da Imprensa em 19/1/2010)

É enorme a chance de um jornalista que cobre um desastre como o do Haiti sentir-se impelido a ajudar as vítimas que agonizam à sua frente. Sua missão de testemunhar e reportar um fato com isenção, de ser uma figura neutra, de respeitar a ética da profissão, perde-se em questão de segundos diante da possibilidade concreta de ajudar o outro, e por um motivo óbvio: o jornalista é humano.

Na semana passada, o neurocirurgião Sanjay Gupta, correspondente médico da rede americana CNN, foi bastante criticado por examinar um bebê de 15 dias diante das câmeras. Gupta contou aos telespectadores, enquanto andava rapidamente por uma rua de Porto Príncipe, que haviam lhe chamado para ajudar a criança, atingida na cabeça no momento do terremoto de terça-feira (12/1). A mãe morreu, e o pai segurava o bebê com uma expressão confusa, como se ainda não tivesse lhe caído a ficha sobre o que acabara de passar. O médico pega a criança, examina seus movimentos, verifica a possibilidade de alguma fratura no crânio e faz um curativo na ferida da cabeça.

“Certamente há casos em que um jornalista qualificado pode e deve fornecer assistência médica quando a necessidade é imediata e séria”, afirma o professor Bob Steele, do Instituto Poynter. “O problema no caso do doutor Gupta é que ele já fez isso em diversas ocasiões no Iraque e agora no Haiti. Se é imperativo que ele intervenha como médico, que saia de seu papel jornalístico e o faça. Não se pode é colocá-lo para cobrir as mesmas pautas das quais participa. Isso confunde a reportagem jornalística e embaça a lente da observação independente”, defende Steele. Ele também acusou a CNN de fazer marketing com o vídeo, ao exibi-lo diversas vezes na TV e dar destaque a ele na internet. “Francamente, não é uma grande história”, justifica.

Para Gupta, não há um conflito ético em usar seus conhecimentos médicos durante as pautas que cobre. Em 2003, ao acompanhar uma unidade médica da Marinha americana no Iraque, o correspondente realizou cinco cirurgias. Na semana passada, ele escreveu em seu perfil no Twitter que é um repórter, mas, em primeiro lugar, é um médico. “Muitos me perguntaram: é claro que, se preciso, irei ajudar as pessoas com meus conhecimentos de neurocirurgião”, afirmou.

Resgate

No fim da semana passada, outro caso rompeu a neutralidade jornalística. Integrantes de duas equipes de TV australianas deixaram a rivalidade de lado para resgatar um bebê preso nos escombros. A menina estava deitada junto aos corpos dos pais, que morreram no terremoto, quando o cinegrafista Richard Moran, que trabalha para a emissora Nine Network, ouviu seu choro. Moran largou sua câmera e começou a retirar pedaços de concreto do caminho, enquanto o intérprete Deiby Celestino tentava encontrar a criança.

As imagens do resgate foram feitas pela maior concorrente da Nine, a emissora Seven. “Das ruínas, surgiu esta pequena menina, e eu nunca vou esquecer. Ela não chorou. Ela olhava assustada, como se estivesse vendo o mundo pela primeira vez”, contou o repórter Robert Penfold, da Nine. As imagens, que rodaram o mundo, mostram ainda o correspondente da Seven, Mike Amor, segurando a criança e lhe dando água. “Naquele momento, era maior do que o jornalismo”, disse Amor. “Eu não via nada tão extraordinário desde o nascimento de meu próprio filho. A emoção, para todos nós, foi inacreditável.”

O caso do resgate feito pelos australianos é diferente da consulta médica realizada por Sanjay Gupta e talvez se encaixe na classificação de “aceitável” pelos críticos, já que se tratava de uma emergência. Ainda assim, eles poderiam questionar se não havia mais ninguém no local para socorrer a criança, se era realmente necessário que um cinegrafista largasse sua câmera, e mais um milhão de “ses”. Fato é que o manual ético se perde em meio a uma situação extraordinária, e é muito difícil criticar uma decisão como a dos correspondentes envolvidos sem ver a destruição que viram de perto – desprotegidos do filtro da TV – com todos os seus odores nauseantes e sons desesperadores.

Os jornalistas tinham a obrigação, como jornalistas, de resgatar a menina dos escombros? Não. Mas o fizeram, e salvaram uma criança. Sanjay Gupta tinha a obrigação, em seu papel de correspondente, de examinar o recém-nascido e fazer um curativo limpo em sua cabeça? Não. Mas o fez, e um pai, que de outra maneira não teria ajuda médica, respirou aliviado. Esperar que não se viole normas éticas em situações como a do Haiti é acreditar que jornalistas são simples pedras, desprovidos de sentimentos ou emoções. Com informações da AFP [18/1/10] e do Los Angeles Times [14/1/10].

Leitura recomendada

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O colega Aldo Antônio Schmitz anda às voltas com sua dissertação de Mestrado, que tratará do agendamento da imprensa por parte das fontes de informação, um tema palpitante para quem trabalha na área e com forte impacto na discussão sobre a mídia contemporânea. Recomendamos o blog que o Aldo criou para amplificar esse debate. Está no endereço http://fontespautam.wordpress.com/

Por uma comunicação mais social!

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Participamos da Conferência Municipal de Comunicação, sexta e sábado, na Câmara Municipal de Joinville. A convite da prefeitura, fui um dos “interlocutores” no eixo sobre Produção de Conteúdo, um dos três grandes temas que nortearam os debates realizados no evento. E põe debate nisso! Uma das melhores coisas foi, exatamente, a oportunidade de colocar lado a lado diferentes segmentos sociais, de empresas (não foram muitas, mas mesmo assim valeu) ao poder público, de organizações não-governamentais a entidades profissionais, para debater isso que, afinal, interessa pra todo mundo, que é o desafio de construir uma comunicação mais inclusiva e democrática. Entre outros aspectos, no eixo de Produção de Conteúdo, tratou-se do necessário estímulo à produção local por parte de emissoras de rádio e TV, dos projetos de rádio e TV públicas para Joinville (a rádio virá em 2010 e será administrada pela Fundação Cultural) e, ainda, de uma bandeira igualmente relevante que é a discussão sistemática sobre a qualidade do que nos servem pela mídia local, muitas mais vezes mais deformando/desinformando do que prestando o serviço de interesse público que lhe cabe ou deveria lhe caber. Da conferência local, as conclusões seguirão para o fórum estadual e, de lá, para o nacional. Bacana. Sem querer, ajudamos a fazer história. (Guilherme)

Um papo com o Torquato

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Compartilho trechos de entrevista feita com o mestre Gaudêncio Torquato, 45 anos de jornalismo, doutor e livre-docente pela USP, consultor de comunicação, articulista do Estadão e nada menos que o primeiro intelectual a estudar (a sério) a comunicação corporativa no país. O material vai ser utilizado em monografia de pós-graduação que estou elaborando. (Guilherme)

“O jornalismo empresarial tem evoluído na esteira dos avanços e progressos alcançados no mundo das comunicações. Significa que as tecnologias da contemporaneidade – internet e suas redes sociais – começam a afetar o universo empresarial, impregnando as comunicações das empresas, para fora e para dentro – e, claro, impactando os veículos do campo jornalístico. Podemos perceber claramente um avanço no terreno da tempestividade, que torna os públicos-alvo do jornalismo empresarial mais próximos e com maior acesso às informações. Por outro lado, podemos perceber mudanças nos modelos de gestão, com indicação de que as hierarquias se tornam mais simplificadas, as estruturas mais abertas, as comunicações ascendentes mais frequentes e intensas, com fortalecimento de alguns conceitos, tais como: responsabilidade social, parcerias, participação, engajamento, interatividade, interação de propósitos, abertura dos fluxos, ética empresarial, transparência, participação nos lucros. O jornalismo empresarial, sob essa moldura, torna-se mais aberto aos inputs da modernidade social, cultural e política.”

“O jornalismo empresarial há de se inspirar na dinâmica social e, consequentemente, nos novos climas ambientais. Não pode e não deve restringir conteúdos, na perspectiva eminentemente empresarial, ortodoxa. A empresa moderna quer sentir as demandas de seus quadros e deles se aproximar ainda mais. Essa necessidade torna a esfera empresarial mais flexível e aberta. Os conteúdos, por conseguinte, devem abranger temáticas que o funcionário precisa saber e temáticas que ele deseja conhecer. Daí porque os comunicadores precisam incrementar seus mecanismos de captação das realidades internas, azeitar suas antenas e melhorar as pautas jornalísticas, de forma que satisfaçam as plenas necessidades dos públicos dos veículos. Um sistema de pesquisas pode ser montado, a partir da própria ferramenta Internet, que deve complementar as formas tradicionais de pesquisa.”

O novo show do assessor de imprensa

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Por Rodrigo Capella, para o Comunique-se*

É comum, no campo humanístico, as mudanças permearem transformações culturais e até cotidianas. Embora não sendo uma ciência, a assessoria de imprensa segue este mesmo fluxo, e com mais dinamismo e profundidade. Se antes o tripé produtivo deste “fazer” estava calcado no produto jornalístico final (fonte, conteúdo e informação); agora se baseia no trinômio diversão (entretenimento, prestação de serviço e experiência de uso). Se antes a ação e estratégia consistiam em fluir informação, agora perdem a essência se não tiverem associadas ao pulsar dos receptores da notícia.

Compreendeu a transformação? O primeiro parágrafo ficou muito didático? Então, prepare-se, pois a prática – nova e ainda não consolidada – pode gerar um mal-estar ainda maior do que a teoria. Como costuma dizer José Luiz Proença, da Escola de Comunicações e Artes da USP, “os jornalistas transferem parte de sua responsabilidade para os assessores de imprensa ao solicitarem notícias ou informarem que têm determinados espaços disponíveis para a publicação de informação”.

Neste contexto, cabe ao assessor de imprensa aproveitar produtivamente essas oportunidades, produzindo um amplo material informativo, que inclui elaboração de podcast, vídeo, post e tweets, além da confecção de apresentações para slide share e da criação de comunidades nas várias redes sociais.

Alguns especialistas ainda chamam este cenário de PR 2.0, mas hoje já se sabe que o conceito é mais amplo. Cada vez mais, o assessor de imprensa precisa entender e compreender o público final e direcionar o conteúdo e linguagem das ferramentas digitais para estes consumidores, que serão atingidos via jornalistas – na maioria dos casos -, mas também via profissionais de comunicação.

Ou seja, os assessores de imprensa vão, aos poucos, se tornando uma outra mídia, com ampla penetração e interatividade. Precisam, portanto, se adaptar à nova escrita da social media (Twitter, Orkut, Facebook e MySpace), mas sem perder a formalidade dos tradicionais releases. Afinal, como gosta de ressaltar José Carlos Marques, da UNESP, “os diferentes meios coexistem e se suportam e, portanto, as novas tecnologias não eliminam as antigas”.

Percebeu qual é o novo perfil do assessor de imprensa? Resguardar-se às origens, mas também atuar como novo veículo informativo, produzindo conteúdo lúdico, pragmático e, sobretudo, interativo. Essa mudança ocorre porque o consumidor final está, cada vez mais, no epicentro das mudanças. Como o público quer diversão, o assessor de imprensa terá de oferecer conteúdos associados a entretenimento, prestação de serviço e experiência de uso (leia-se, em certos pontos, interatividade), rompendo gradativamente – e definitivamente – com o tradicional texto informativo, que apenas traz conteúdo estático e conhecimento das fontes.

Essa ruptura traz como consequência um novo desafio para os assessores de imprensa. Afinal, não basta somente informar o público. É preciso conquistá-lo, cativá-lo e fazê-lo vibrar e pulsar com determinados produtos. É por isso que muitos teóricos já decretaram o fim da separação entre Assessoria de Imprensa e Marketing. Cada vez mais estratégico, o assessor precisa fazer os consumidores assimilarem as informações e não somente arquivarem. Afinal, o que é arquivado pode ser descartado!

Para tanto, é preciso conhecer realmente os anseios humanos. Parece básico? Mas, não se trata de algo tão simples! Em seu mais recente livro, The Skin of Culture: Investigating the New Electronic Reality (disponível em português como A Pele da Cultura: investigando a nova realidade eletrônica), Derrick de Kerckhove, discípulo de Mcluhan, levanta, após realizar experimento com dispositivos capacitados para medir as suas reações na pele, a hipótese de que a TV conversa, em um primeiro momento, com o corpo (reações físicas) e não com a mente (estímulos para competências criativas e reflexivas).

Ora, se a TV é um veículo informativo de fácil compreensão – basta estar atento ao monitor para entender o conteúdo – estaria, então, a social media – uma ferramenta de essência “perturbadora” -, logo em um primeiro momento, associada à mente? Será por isso que ela tem provocado – e ainda provocará, por muitos anos – dores de cabeça nos assessores de imprensa, que tentam a todo custo compreendê-la? Será que o assessor terá que, de alguma forma, ser um perito em mentes humanas?

São apenas questionamentos e rápidas associações, sem conclusões precipitadas. Neste contexto tão novo, somente um fato foi consolidado: o assessor de imprensa vive um momento distinto e quem souber aproveitá-lo dará um novo show. Que rufem os tambores! Que abram as cortinas!

(*) Rodrigo Capella é assessor de imprensa desde 2002. Formado em Jornalismo pela Umesp, é pós-graduado em jornalismo institucional pela PUC-SP. Autor de vários livros, entre eles “Assessor de Imprensa – fonte qualificada para uma boa notícia”. Atualmente, trabalha na FirstCom Comunicação, onde atende principalmente contas de tecnologia.

‘Copia e cola’ de releases pode gerar processo por dano moral

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De Izabela Vasconcelos, para o portal Comunique-se

“Copia e cola” de releases é algo conhecido pelos jornalistas, mas pior ainda quando a notícia é publicada com o crédito indevido. Foi o que aconteceu com a jornalista Claudia Yoscimoto, que teve uma matéria publicada na íntegra em um site, assinada por outro profissional. Mais que antiética, essa atitude é ilegal e pode gerar processos por danos morais.

Na época, Claudia fazia um trabalho para o então prefeito de Mogi das Cruzes (SP), Junji Abe. A jornalista acompanhou a visita do prefeito ao Japão e divulgou o fato aos órgãos de imprensa brasileiros no país e à assessoria de imprensa da prefeitura. O caso aconteceu em 2007, mas Claudia só se deu conta quando fez uma busca pelos textos para incluir em seu portifólio. “Foi a primeira vez que isso aconteceu comigo. Quando se muda alguma coisa, tudo bem, mas dar crédito para outra pessoa, isso foi antiético”.

Para o presidente da Associação Brasileira da Propriedade Intelectual dos Jornalistas Profissionais (Apijor), Frederico Ghedini, apesar das assessorias de imprensa terem suas particularidades, os profissionais que atuam nessa área podem reclamar seus direitos. “Ninguém pode colocar o nome em um texto que não foi ele quem fez. Isso pode suscitar uma ação por danos morais. É uma questão de direito autoral”, explica.

Outros problemas

A jornalista Paula Batista, sócia da Lide Multimidia, agência de comunicação com sede no Paraná, conta que o fato é comum. “Isso acontece bastante, de colocar o nome do jornalista do veículo, quando não usam o assessor como fonte, aspas na matéria. Mas não há muito o que fazer, porque geralmente ficamos sabendo muito tempo depois da publicação, e lidamos com um universo muito grande de jornalistas, alguns mais conhecidos, outros não”.

Paula considera esse tipo de situação constrangedora para explicar para o cliente e adota algumas medidas para coibir a apropriação dos textos da assessoria. “Queremos que os clientes sejam divulgados na imprensa, mas quando acontece essas coisas acabamos restringindo, evitando de pautar o veículo. Outra opção é fazer o follow-up, para inibir e permitir que o jornalista fale com o porta-voz”, afirma.

A jornalista relata um dos episódios que ela diz acontecer com frequência. “Quando fiz um trabalho para uma ONG, enviei um release. Quando fui ver, o texto havia sido publicado na íntegra em uma página inteira de um jornal”, relembra Paula, que enfatiza que fatos como esse acontecem principalmente em veículos pequenos, mas há exceções. “Isso já aconteceu na extinta Gazeta Mercantil, publicaram um release nosso, acrescentaram apenas um olho”, conta.

Para a advogada da Apijor, Dra. Silvia Neli, casos como estes são comuns. “Um dos mais recentes que me lembro foi o caso da publicação de uma foto como ‘divulgação’ na Folha. A foto foi enviada por uma assessoria. Ganhamos em primeira instância, mas a Folha está recorrendo”.

Silvia afirma que é essencial os jornalistas estarem atentos aos direitos autorais. “É importante ter essa atenção, o que não é uma prática no mercado, porque a qualquer momento uma pessoa pode requerer seu direito”, conclui.

Manual de crise para “seu coronel”

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[Artigo do Guilherme publicado no dia 8 de agosto pelo jornal A Notícia, no caderno Anexo Ideias]

Empresas dos mais variados segmentos, instituições acadêmicas ou de saúde, ONGs, sindicatos, até algumas agremiações desportivas, vêm aprendendo a se comportar diante de crises que, como a pedra de Drummond, aparecem no meio do caminho. Dez entre dez consultores defendem que a prevenção é o melhor antídoto para tais situações inesperadas que, mais dia, menos dia, ganham as páginas da imprensa. “Não se pode viver sob a ilusão de que crises só acontecem com outras empresas. Ou que a crise encontre todos despreparados, inseguros e confusos”, alerta um destes manuais que, há coisa de uma década, tornaram-se verdadeiras bíblias corporativas, aconselhando o homem de negócios que se defronta com algum tipo de acidente de percurso a tomar a dianteira, atuar com transparência e abrir o jogo para a mídia. Atitudes firmes em momentos de crise ajudam a transmitir ao público uma percepção elevada sobre aquela organização. “Inúmeros são os casos em que, mesmo diante de acontecimentos que muitos poderiam considerar catastróficos, seus agentes conseguiram elucidar os fatos e revertê-los de forma favorável ao fortalecimento de suas imagens”, ressalta o publicitário Sérgio Diniz.

Todo esse preâmbulo vem para amparar a suspeita de que, baseado na mina de ilicitudes escavada pelos jornais no Congresso desde o início de 2009, e na reação desnorteada das suas principais lideranças, os políticos brasileiros ainda não têm seu manual de crise. Ou como entender, se não atribuindo à total falta de preparo para lidar com a emergência do cidadão na sociedade moderna, que um deputado cara-de-pau tenha reconhecido que se lixa para a opinião pública? Ou que, nos últimos dias, o coronel José Sarney tenha repetido o discurso redundante de que a crise no Senado é culpa da imprensa, eximindo-se de qualquer responsabilidade sobre a dúzia de acusações a seu respeito que a mídia trouxe à tona (e que não cabe repetir aqui)? Não, ele não tem culpa de nada, jamais cometeu “algo que o desabonasse”, as denúncias são “levianas”, sua vida é “ilibada”, seu passado é “coerente” e seria uma injustiça processá-lo baseado “em recorte de jornal”. (O trololó, pronunciado na quarta-feira, convenceu o Conselho de Ética do Senado, que arquivou sem demora quatro ações contra “seu” coronel.)

Sobre o papel da imprensa no “caso Sarney”, talvez a ressalva que se possa fazer é que os grandes jornais custaram a “apostar nesta pauta”, como se diz em redações. Nesta e nas que a precederam, durante o ano, como a da farra das passagens aéreas, cometida há séculos sob o nariz de repórteres que cobrem Brasília sem que um deles ousasse se lançar em uma investigação acurada a respeito de tantos desvios e desvarios. O eleitor/contribuinte/cidadão tem, sim, o direito supremo de ser informado com o máximo rigor jornalístico sobre as aventuras dos políticos que elege e sobre malversações (tão frequentes!) com o uso de dinheiro público. A imprensa sem mordaça – como a que tentou impor, pela via da Justiça, o filho do coronel, em ação que proíbe o jornal O Estado de S. Paulo de noticiar uma operação que apura irregularidades contra ele – é condição basilar de uma nação democrática. Sugere-se, por fim, que os consultores de comunicação do Senado Federal (devem ser muitos…) expliquem isso para o coronel e montem de uma vez por todas um manual de crise para que os próximos detentores do cargo saibam reagir adequadamente quando a imprensa lhes bater na porta. 

 

O jornalismo, ensino e regulamentação profissional

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Por Samuel Lima, jornalista e professor universitário. Doutor em “Mídia e Teoria do Conhecimento” (UFSC, 2005).

A recente decisão do Supremo Tribunal Federal, pondo fim à obrigatoriedade da formação superior para o exercício do jornalismo, abre uma profunda crise na profissão e no ensino do jornalismo no País. Ganham os “barões” da mídia, a dúzia de famílias que controla as comunicações no Brasil. Perdem os jornalistas e a sociedade, num risco iminente à democracia. A primeira demonstração veio, ato contínuo à decisão: montados numa cobertura parcial e rasteira, os donos da mídia se autotransformaram em paladinos da “democracia” e da “liberdade de expressão”.

Tal crise abre uma raríssima oportunidade de se promover uma discussão à altura dos impasses que o jornalismo enfrenta no limiar da chamada convergência digital. Proponho uma reflexão em duas dimensões indissociáveis: (1) a necessidade de qualificação do ensino superior em jornalismo, com sensível redução do número de cursos, e (2) a instituição de uma regulamentação profissional que impeça um massacre trabalhista da categoria. Parto da compreensão de que o jornalismo é forma de conhecimento social, de altíssima relevância pública, e que por isso mesmo não pode ficar refém de fórmulas rasas como “talento”, “moral”, “vocação” e “técnica”.

O jornalismo do Gilmar

O voto do presidente do Supremo, ministro Gilmar Mendes, deve entrar para o museu das relações entre o Judiciário e os donos da mídia. Sem disfarce, Mendes assumiu integralmente as teses que os empresários da comunicação defendem há pelo menos duas décadas. O voto é marcado pela confusão intencional entre o exercício da profissão e a suposta defesa da “liberdade de expressão”. Ao fim, desemboca no acolhimento de algo que é muito mais precioso aos patrões: “São os próprios meios de comunicação que devem estabelecer os mecanismos de controle quanto à contratação, avaliação, desempenho, conduta ética dos profissionais do jornalismo. Poderão as empresas de comunicação estipular critérios de contratação, como a especialidade em determinado campo do conhecimento, o que, inclusive, parece ser mais consentâneo com a crescente especialização do jornalismo no mundo contemporâneo”.

O STF tenta transformar a regulamentação profissional num monopólio patronal. Trata-se de uma irresponsabilidade histórica, no momento em que o mundo civilizado busca saídas para uma crise econômica gerada pela mesma lógica: a sanha desregulamentadora, o mito neoliberal de que o mercado seria o fim da caminhada humana e o nirvana da justiça social. No entanto, o argumento é até natural, se considerarmos o que Mendes entende por jornalismo: “O jornalismo é a própria manifestação e difusão do pensamento e da informação de forma contínua, profissional e remunerada. Os jornalistas são aquelas pessoas que se dedicam profissionalmente ao exercício pleno da liberdade de expressão”.

Ora, o exercício cotidiano da profissão tem como produto principal a notícia. E isso nada tem a ver com liberdade de pensamento ou de expressão da sociedade, coisas que estão garantidas pelo amplo acesso à mídia de especialistas, colunistas, colaboradores de outras áreas de conhecimento que escrevem regularmente para os diferentes meios de comunicação. Qualquer levantamento empírico derruba esse argumento.

Como produtor social de sentidos, no plano simbólico, mediador entre os acontecimentos e o público, o jornalismo se consolidou como forma de conhecimento social que precisa ser valorizada como tal nos dois sentidos: o profissional, com alto grau de responsabilidade social, e o da área de conhecimento, sobre a qual há muito a apreender e compreender.

Faltou perguntar aos “doutos” do STF o que de fato impede a liberdade de expressão e de manifestação da cidadania: o monopólio da comunicação ou a exigência da formação superior em jornalismo?

A qualificação do ensino superior

A mercantilização do ensino superior, a partir de 1994, com a expansão sem critérios da oferta de cursos privados, configurou um modelo hoje, ao que tudo indica, esgotado e que começa a definhar. É crescente a taxa de ociosidade nas matrículas, assim como a saturação do mercado de trabalho, em diversas áreas e profissões.

A formação de jornalistas está imersa nessa crise do modelo do ensino superior privado. Após o inchaço chegou o movimento de retração, marcado por fechamento de instituições e cursos, fusões, compras e vendas, abertura de capital (caso da Estácio de Sá e Anhanguera). É o momento adequado para que todos os envolvidos (Estado e seus entes reguladores, Fenaj, sindicatos, docentes e alunos/as) discutam a questão e apontem saídas. Não é possível deixar como está. Afinal, que tipo de interesse público poderia justificar a oferta de oito cursos de jornalismo em cidades como Curitiba e Brasília? Ou ainda que o sul do País tenha 54 cursos, número superior ao total das escolas de jornalismo, por exemplo, na Itália?

Um novo critério de avaliação e renovação das autorizações de funcionamento deve ser adotado, imediatamente. Algo conectado a três questões fundamentais: qualificação do corpo docente (titulação e experiência), projeto pedagógico de curso e infraestrutura disponível (compatível com o projeto pedagógico e as necessidades da formação superior). Um último critério deve ainda ser observado, que é o mercado de trabalho na cidade e/ou região do curso.

A urgente regulamentação profissional

No mesmo grau de importância, a crise gerada pela decisão do STF descortina a oportunidade de a categoria profissional aprimorar uma regulamentação, via Congresso Nacional.

Uma proposta de regulamentação da profissão precisa, além de contemplar salvaguardas para o exercício diário do jornalismo, do ponto de vista das relações capital-trabalho, instituir uma forma de acesso à profissão, como um Comitê Tripartite (jornalistas, empresários, Estado) ou Conselho Federal dos Jornalistas. As alternativas já estão sendo discutidas pela Fenaj, sindicatos, ABI e demais entidades da área.

O mercado não demonstra o menor interesse em investir na formação adequada e, quando o faz, se restringe a cursos que se limitam a reforçar o conteúdo desenvolvido nas escolas de jornalismo. Não por acaso, as Organizações Globo, não obstante defender a decisão do STF, divulgou nota oficial na qual assume uma posição clara em defesa das escolas.

Os defensores da profissão como simples “ofício” ou “vocação” prestam um desserviço ao jornalismo e ao interesse público. Nos últimos trinta anos, algumas gerações de pesquisadores se dedicaram a estudar o jornalismo como forma de conhecimento fundamental à formação da opinião cidadã e à democracia, propondo o aprofundamento do aporte epistemológico e do domínio técnico. Tal conhecimento acumulado indica o caminho de valorização e qualificação do ensino, e por consequência dessa profissão que encerra alta relevância social.

Mercado de Comunicação

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