Saudades da ética engarrafada
Crônicas Seja o primeiro a comentar »Outro dia, conversando com amigos sobre ética, percebemos, todos, que hoje ninguém mais se dedica à famosa filosofia de mesa de bar, tão comum em nossos tempos de estudante. Perdeu-se – ou ficou adormecida, sem espaço para um redespertar -, aquela doce capacidade de investir preciosas horas em embates político-filosóficos que, mais do que tentar buscar respostas para as dores do mundo, alimentava o desafio de jamais deixar de perguntar.
Pelas rodas universitárias, molhávamos a palavra com alternativas bem mais baratas que os bons vinhos degustados hoje. Mas falávamos de Kant e Nietzsche – quem vai esquecer da frase “há sempre alguma loucura no amor, mas há sempre um pouco de razão na loucura”… Invejávamos a obstinação de Guevara, xingávamos o imperialismo norte-americano, nos recusávamos a beber Coca-Cola. E sonhávamos com um mundo mais justo. Discutíamos as diversas correntes políticas estudantis – alguns de nós, vez ou outra, perdiam o engajamento diante de paixões avassaladoras mas, passada a insensatez, lá estávamos todos, outra vez, certos de que ajudaríamos a fazer um mundo diferente – mais justo, essencialmente.
Aquele saudável pulular de ideais, que não se limitava à universidade gaúcha, mas foi uma saudável característica daqueles anos, ajudou a forjar uma linda geração de profissionais de várias áreas. De médicos a agrônomos, veterinários a advogados, os quarentões e cinqüentões de hoje, em sua maioria, seguem destacados em suas carreiras, no mínimo, resguardando absoluta fidelidade a sua essência. Alguns, porém, se fizeram políticos – e, daí, não há como escapar, que ética política é tema de sofrimento, muito mais do que reflexão.
Um dos aspectos bem interessantes daquele momento era a constatação de que aqueles estudantes de medicina, engenharia e agronomia liam muito, e liam de tudo, de sociologia e política à inevitável e inquietante filosofia. Jornalistas e advogados, nem se fala. Sabiam, portanto, escrever muito bem, não raro compunham lindos poemas e canções, destacavam-se nos jornais dos diretórios acadêmicos com artigos consistentes e em pleno acordo com a ortografia. E é fácil identificá-los hoje: são o terror dos representantes comerciais dos grandes laboratórios, engajam-se em causas humanitárias, não perderam a capacidade de se indignar. Tá certo, continuam bebendo, perseguem as mesas de bar – e constroem um legado de insaciável sede de vida e de justiça.
Ana Ribas Diefenthaeler