Informação é coisa séria!

Borboletas de asas azuis

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Patrícia Schmauch, estudante de Jornalismo do Ielusc, inspirada pelo filme “O Escafandro e a Borboleta”

“Agarre o mais rápido possível o humano dentro de você. Palavras de “O Escafandro e a Borboleta”. Jean Dominique Bauby sente-se preso ao fundo do mar, desesperado, incapaz de voltar a viver de aparências. Editor de uma das mais famosas revistas francesas, marcava forte presença no mundo internacional da moda e em eventos sociais. Sofre um súbito derrame cerebral e acorda três semanas depois, lúcido, porém com uma rara paralisia: consegue apenas movimentar o olho esquerdo. Isso significa algo para nós?

Bauby conseguia raciocinar, mas não podia se locomover; comunicava-se com o mundo de forma restrita: piscava letras do alfabeto, formando palavras, frases e ideias. Apenas com o passar do tempo e depois de decidir não se entregar, cria seu mundo próprio, apenas com o que não perdeu: sua memória e imaginação. É disso que vive o jornalista. Com dedicação e força de quem sabe o que quer, ele escreve e dá emoção aos seus textos. Talento e admiração são consequências. É necessário observar, analisar, olhar lá do alto. Olhares valem mais que palavras. É o olhar que instiga, atrai certezas, distancia medos e oportuniza experiências. Oferece amplitude, clareza de pensamento e superação.

Há forte semelhança entre Bauby e o mundo da comunicação. Presente em todos os lugares, compreendida e acessível a todas as pessoas, a comunicação precisa de estímulo, novidade, detalhes. Precisa de uma pitadinha de tempero, de boas histórias, criatividade, de um “contar as coisas de um jeito diferente”. Quando se começa a enxergar as coisas com outros olhos, as pessoas aprendem, evoluem e todos só tem a ganhar. O triste é que isso acontece geralmente em situações extremas.

É preciso achar novas formas de se comunicar para fugir do banal, da comodidade, do social. Deve-se acreditar em si e seguir objetivos e ideias do próprio ponto de vista. Bem como no filme, em que a história é contada do ponto de vista da personagem. Tudo muda a partir de você, sua análise e observação. Ideias, atitudes e ações não podem ficar no inconsciente, digeridas; devem ser gritadas ao mundo, expelidas.

Há ideias que Bauby não defende nem inconscientemente. É o erro da maioria das pessoas. O comodismo não pode deixar o trabalho jornalístico tornar-se algo rotineiro, livre de verdade e especulação. Deve-se defender o que se acredita para depois passar a informação à sociedade. Primeiramente, é preciso acreditar em si mesmo, sem medo do depois. Os melhores momentos de Bauby acontecem dentro da cabeça dele. E não passa disso. Na vida real não pode ser assim. O melhor momento é o agora. Aproveitar o presente, fazer, realizar, defender, aprender. Amadurecer uma ideia é o suficiente para torná-la boa. Não se pode viver do passado, do comum. E muito menos do desinteresse.

Há grandes paralelos entre o trabalho desenvolvido pelas fisioterapeutas do filme a profissão do jornalista. Ambos decodificam informações, formam conexões e viabilizam conhecimento.

Decidir por si mesmo é importante. Não apenas jornalistas, mas todos os profissionais deveriam ter a virtude. O repórter não deve se deixar influenciar por suborno, status ou dinheiro. Quando pessoas alheias tomam decisões, elas não sabem da vontade, das ideias e do interesse dos outros. Muitas vezes, não aceitam, não escutam. Para o domínio também há solução: deve-se soltar, interagir, participar, impor. Não há outra forma de sair do casulo, do comum, do desinteressante, para transformarmo-nos em borboletas de asas azuis. A não ser pela metamorfose, libertação.

Vazio de um dia

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Edemilson Camilo, estudante de Jornalismo do Ielusc

Um dia nublado, sem cor de amor. Um dia pálido, sem sabor de amor. Um dia escuro de um futuro incerto. Uma cidade eufórica, mas deserta! Um movimento contido repentinamente, e tudo parou… Alguém pisaria em alguém espalhado na calçada com um salto agulha. Ninguém queria ceder – que desvie você! Olhava pro chão, encarava e se voltava para trás. Olhava o rebolado da morena, da loira ou da ruiva, olhava todas, tarado por bundas. Ela também olha, e vê o corpo sarado, já suado. Tinha outros aspectos, alguém estuda as vitrinas, um gracejo rompe o limite da etiqueta, ou alguém que viaja num beijo, param, começam, trocam tapinhas, beijo pequeno, prolongado, pensa que ninguém vê, e a mão faz uma carícia abaixo da bunda. Num frenesi, alguém ali tinha a percepção de tudo o que acontecia. Agora tinha o controle, mas se conteve. Alguém ali pensou no isolamento, e já congelava com falta do calor humano. Explorar a face das pessoas com gestos angustiantes, de uma rotina que mal começou. Tinha o ar de preocupado, cansado, irônico, felicidade, de dor, denotava tristeza, não via nada a não ser beleza e um belo vazio. Olhos arregalados, puxados, esbulhados, quentes, solitários e alguns tinham o mesmo vazio. Belos, mas vazios! Um vazio de um dia! Sentiu-se culpado e apertou o botão e tudo começou de volta, de volta, de volta… Ninguém se ateve nem se deteve a detalhes. Se as horas passassem, ninguém teria percebido, apenas diria que o tempo voa.

Quem gosta dos dramas, melodramas da vida? Os carros aguardavam o sinal. Abriu o sinal e se foi, ficou o vento que se passava por onde passava, era o único vento que cortava, mas predominava o ar pesado. O zunido faz parte da sonoridade, mas alguém harmoniza com fones de ouvido. Um aparelho que fica escondido entre as calças, pele, desfila na mão. Ainda livre dos arrastões! Levam tudo! Alguém precavido tarde leva a mão ao bolso e nada encontra. Dois guardas, que sejam policias, encostam uns no muro enquanto outros esmurram um. Adiante, distante do interesse, alguém grita pega ladrão. Em vez de conter da passagem e pensa – que tenho a ver com isso.

E alguém é incompreendido quando tenta compreender. Ama as pessoas, mas os gestos o incomodam! Que guarda pra si seus anseios, que vive pra si seus sonhos. Idealiza um mundo faz um convite e ninguém aceita. Busca a natureza, cavalgar em campos, passeios noturnos, vagas manhãs e tardes litorâneas, longe do afago da presença frenética, que vêm e vão ao mesmo ritmo, que confortam tantos, mas que transportam em nada ser. Ser mais um! Mais um… Vidas que vêm e que vão! Vidas que vêm e que vão! Vidas que vêm e que vão… em vão… (cantando) também nada fará, apenas dirá.

As coisas acontecem

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Do estudante Edinei Knop, inspirado pelo filme “O Escafandro e a Borboleta”.

Vivemos… e as coisas acontecem! Destino? Azar? Sorte? Castigo? A vida é feita de acontecimentos; alguns positivos e outros negativos. E as coisas acontecem mesmo! No lugar mais inoportuno, na hora menos esperada, na situação mais acanhada e nos momentos mais escandalosos! E não venha me dizer que não. As coisas acontecem mesmo, e com todo mundo! Menos com os mortos! Porque morrer é antônimo de viver… e viver é sinônimo de acontecer. E as coisas acontecem mesmo, e com todo mundo, e várias vezes durante sua vida! Persistir, lutar e vencer! Não adianta fugir, não adianta se esconder, flutuar, mergulhar em seu escafandro mental. A vida é assim! E as coisas acontecem mesmo, e com todo mundo, e várias vezes durante sua vida, e assim será!

É de acontecimentos da vida que vivem os jornalistas. É da vida que as notícias surgem! E do olhar (e um olhar diferente). Porque as coisas acontecem. Sim, elas acontecem! E, na hora de transcrever para um pedaço insignificante de papel ou para uma tela LCD, muita coisa acontece. Afinal, por que escrever? Uma caneta? Algumas teclas? Sim, as coisas acontecem mesmo, e com todo mundo, e várias vezes durante sua vida, e assim será, e nunca você poderá escapar.

Um piscar pode dizer tudo, mas não pode responder tudo! Porque eu acho que você já sabe que as coisas acontecem, comigo e contigo. E as dúvidas sobrevivem, mesmo que muita coisa aconteça.

Por que cantar? Por que falar? Por que pensar e se movimentar? Por que viver? Viver para se encantar; encantar-se com o voo das borboletas. Se você puder enxergar; e se houver borboletas!

Uma visão que vá além…

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[Comentário da estudante de jornalismo Vivian Carolini Braz]

No filme o “Escafandro e a Borboleta”, percebemos a importância da comunicação. O jornalista precisou aprender uma nova forma de se comunicar com as pessoas.
Em nosso trabalho, algumas vezes, precisaremos readaptar nossa forma de nos comunicar, dependendo do público para quem escrevemos ou falamos.

Outro ponto importante é que o personagem perdeu todos os sentidos, menos a visão. Nós precisamos ter uma visão que vá além do que vivemos diariamente. Ele estava dentro do hospital, mas sua visão não se limitava ao seu quarto. O personagem não deixou que seu estado físico o impedisse de “ver além” daquelas quatro paredes.

Nós precisamos ir atrás da informação, temos que estar atentos aos acontecimentos, mas não podemos nos limitar ao que se passa somente ao nosso redor.

Criamos nossos escafandros

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[Texto da estudante de jornalismo Emanoele Girardi, comentando o filme "O Escafandro e a Borboleta"]

“A imaginação e a memória são as únicas maneiras de escapar do escafandro”, foi o que disse Jean-Dominique Bauby. Nunca sabemos o que pode acontecer conosco. O destino é tão incerto que gosto de pontuar como “um passo em falso em que somos obrigados a pisar”. Em um dia estamos bem, de todas as formas, física e psicologicamente, e, depois de uma noite bem ou mal dormida, acordamos dentro do escafandro, num mar particular em que quase não conseguimos nadar.

O escafandro pode representar uma indisponibilidade física, mas também pode vir de dentro. De certa forma, todos estamos presos num grande escafandro que se chama sociedade, na qual podem se fazer certas coisas até um determinado grau. Nós criamos nossos próprios escafandros, mantendo-nos presos a costumes, às leis e normas que impomos. Quanto a esse, a imaginação, é fundamental para burlar, para criar asas, para não afogar-se num mar de desilusão (ou ilusão).

Para tudo na vida há o lado positivo e negativo. E todos os dias pessoas acordam num escafandro ou libertam-se dele. Basta dar-se asas e encontrar a liberdade. Superar-se.

Palavras são importantes, elas constroem pensamentos e tem poder de acrescer ou destruir relações, elogiar ou criticar, ferir ou acalentar… E o que dizer sobre a beleza e a sutileza do olhar? Os olhos podem falar muito mais que os lábios. Podem ser gentis, ou duros, podem sentir compaixão, podem amar, podem estar distraídos e podem muito bem – por que não? – informar. Contar histórias.

A superação e a sutileza do olhar fizeram de Jean-Dominique um vencedor, muito mais do que ele já havia conquistado sendo editor da Revista Elle. Não é preciso mãos para escrever ou boca para falar, o importante é não deixar-se prender no escafandro, ou deixar-se, mas aprender que para sair dele só é preciso criar asas, libertar-se, e isso só depende de cada um.

Saia do seu escafandro

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Quem escreve, por dever de ofício ou diletantismo, não pode deixar de assistir ao filme “O Escafandro e a Borboleta”. Trata-se da história (real) de um jornalista francês acometido de derrame cerebral que, mesmo tendo perdido a fala e os movimentos de todo o corpo, à exceção de um dos olhos, continua se expressando por meio de um método criado pela fisioterapeuta que cuida dele, no hospital, e desse modo “escreve” um livro. A escrita, no caso, tira a borboleta de dentro do escafandro, para usar a imagem que dá título ao filme (e ao livro). Diz o personagem que só lhe restaram “a imaginação, a memória e o olhar”. Assim, ele mantém ativa a comunicação. Na aula de Redação Jornalística, assistimos ao filme logo na abertura do semestre, na tentativa de desafiar aos futuros jornalistas a sair do escafandro, não perder o pique diante dos obstáculos que virão. Depois, a turma escreveu o que sentiu. Abaixo, o primeiro relato, da Francine Ribeiro. (Guilherme)

“O que a vida pode nos reservar? E quando o olhar atento de um jornalista passa a ser o transmissor de todas as informações que antes eram contadas pelas palavras escritas pelas mãos, ou ditas pela voz? A vontade de contar as coisas permanece, porém com alguns obstáculos. Ou muitos obstáculos, que devem ser superados. Superação. Palavra forte, com importante significado e difícil de ser colocada em prática. Porém possível, quando contamos com o apoio de quem amamos. Muitas vezes, deixamos passar em nossas vidas oportunidades. Fazer uma viagem, dançar uma música, escrever coisas simples que estamos sentindo no momento…expor nossos sentimentos! Usando algumas palavras, um papel e uma caneta ou apenas nossas lembranças,que podem ser transmitidas pelo silêncio do nosso olhar.”

Outros olhares

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[Aqui, o relato da Patrícia Schmauch para o exercício do Ielusc que desafiou a turma a descrever cenas cotidianas sob outros olhares]

Sobre a questão das coisas simples

Duas horas da tarde de uma típica e preguiçosa segunda-feira. Foi uma manhã gostosa, a não ser o calor terrível na volta pra casa. Sinto que ainda há em mim os resquícios do fim de semana. Finalmente cheguei em casa, depois de uma manhã de trabalho. Joguei minha bolsa num canto, tomei um banho, troquei de roupa, fui correndo ligar um ventilador qualquer. Quis descansar um pouco. Abri e fechei meus olhos bem devagar. De repente, deparei-me com lindos olhos azuis me fitando. A menininha vestia um vestido cor-de-rosa e tinha laços no cabelo. Maravilhosa! Como eu nunca havia reparado em tamanha angelicalidade e beleza? Não demorou a começar com as perguntas, frequentes logo que eu chegava em casa. Ganhei um abraço forte. Começou com suas histórias. Resolvi deixar as obrigações de lado e dar a ela merecida atenção. O brilho daquele olhar já havia me conquistado. Falamos de comida, de escola, de flores e bonecas. A pequena menininha dava risadinhas lindas. Comemos pipoca assistindo a um filme, brigadeiro e sorvete pra pular na piscina. Comecei a perceber como as coisas simples faziam bem às pessoas. Foi uma tarde muito especial. Já era fim da tarde e a vida acadêmica me chamava. Fui juntando minhas coisas e ela estava ali, próxima, colaborando. Quando tive que sair, ela me deu um beijo gostoso e um sorriso de aprovação. Até perguntou se poderíamos repetir na terça. Mas é claro que poderíamos! Até fazer mais e mais coisas! Menina boba! Caminhei até a faculdade. Pude sentir o cheiro da tempestade que estava se formando. Alguns clarões no céu e o gostinho da chuva um pouco antes de eu chegar ao meu destino. Caminhei devagar debaixo da água refrescante, sentindo as gotas refrescar minha alma.
E depois disso, o resto foi apenas o resto.

Ainda um novo olhar

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Mais um relato de estudante de Jornalismo, de uma cena urbana vista com outros olhos. O texto é de Edinei Knop.

Século 21. Uma população estressada, cansada e sem tempo. “Mas como o tempo está passando rápido!”, é o que se ouve por aí. Na verdade, é a própria população que não tem tempo para perceber que esse está passando. São tantos compromissos no dia a dia que acabamos nos esquecendo de observar, de inovar e procurar novidades. Passamos pela mesma rua, pela mesma calçada, no mesmo horário e com os mesmos objetivos, quase todos os dias, e não procuramos praticar “um olhar diferente” – aquele que nos revela cenas jamais vistas.

É através deste “novo olhar” que descobrimos muitas coisas. Como sou frequentador assíduo de transporte coletivo intermunicipal, decidi olhar para um novo ângulo. Escolhi olhar para baixo. Percebi que as pessoas, na correria diária, carregam no interior de seus automóveis objetos curiosos. Podemos citar: almofadas, envelopes amarelos, chapéu de caubói, sacolas verdes de uma loja de confecções masculinas, pastas, jornais, bolsas, pilhas de papel, sapinho de pelúcia e muito mais. Fiquei completamente abismado com tudo que vi. Eu não imaginava encontrar tantos objetos no interior dos carros. E também não imaginava que um simples direcionamento dos meus olhos pudesse revelar tantas curiosidades.

Cenas urbanas e outros olhares

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[Mais um depoimento de estudante de jornalismo, com relato de uma cena urbana vista sob outro olhar. O texto é da Francine Ribeiro]

Diariamente, caminho pelas mesmas ruas e, muitas vezes, encontro as mesmas pessoas. Umas com pressa, outras distraídas, e outras apenas caminhando. Muitas vezes, estou com pressa, distraída e caminhando. E não é que, de tão distraída, não percebi que uma construção iniciada há meses está praticamente concluída. Que uma loja com vitrines belíssimas tem um telhado caindo aos pedaços. Percebi que reparo pouco o outro lado das ruas por que caminho. Ao atravessá-las, vi pessoas diferentes. As que eu sempre encontro estavam lá, do outro lado. O lado por que sempre passo, com pressa e distraída.

Mais relatos de sala de aula

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Na turma de Redação Jornalística do Ielusc, o professor convidou a turma para produzir relatos sobre cenas e situações cotidianas vistas “com outros olhos”, buscando experimentar o que seria a “perspectiva do repórter” sobre os fatos narrados (sempre diversa, mais ampla, mais minuciosa). Vieram retornos interessantes, como o que segue, da Juliana Nogueira Gonçalves. Vejam aí:

O despertador toca. 7h25. Engraçado, mas o meu relógio está atrasado dez minutos, o que significa que são 7h15 e, mesmo sabendo disso, programo a opção “soneca” para dez minutos, o que volta às mesmas 7h25. Faz parecer que dormi um pouco mais. Meu trabalho não é dos melhores, mas fica a quatro minutos da minha casa e é permitido ir de chinelo. E é de Havaianas que faço sempre o mesmo caminho. Subo o morro, atravesso a rua, viro à esquerda, continuo por cem metros e bato o cartão. Passadas quatro horas de trabalho, enfim a uma hora sagrada de almoço. A fome aflora o instinto de sobrevivência das cavernas que há em nós. Chego em três minutos para o prato que espera ser ocupado com o rotineiro purê de batata. Com o estômago cheio, ou pelo menos saciado, é hora de enfrentar mais quatro horas da jornada trabalhista. E é nessa hora que a menina da bicicleta azul aparece com a cara afobada. Como se estivesse em cima da hora. Ela trabalha na papelaria da rua de baixo. Já a vi algumas vezes, não sei seu nome, nem em qual casa mora. Mas sempre cruzo com ela nesse horário. Eu, do lado direito; ela, do esquerdo. E hoje eu também do lado esquerdo, ela desvia de um carro ao meu lado. As lajotas que estão do lado direito da minha rua, bem em cima do morro, estão soltas. Na frente, a residência é habitada por um caminhoneiro, e o caminhão estacionado na frente, com o tempo, afundou e soltou as lajotas. O que me faz  desviar sempre, já que costumo tropeçar nelas. Na esquina, a construção de um prédio. E a árvore que faz uma boa sombra atrapalha as janelas do edifício, o que me faz suspeitar que logo a cortarão. Percebi porque nunca vou do lado esquerdo, é que na outra esquina tem uma verdureira, e os restos de repolho, e folhas de beterraba sempre ficam na calçada. O cheiro é ruim. Atravessando a rua, vejo o enorme e magrelo cachorro que mora com seu dono numa kitinete. Vi poucas vezes o dono, mas o cachorro todo dia, já que o espaço é muito restrito. Sinto dó dele. É um daqueles tipos de cães que servem pra ficar correndo no campo e próprios para praticar atividades físicas. E o que ele tem é uma casinha, com um pote de ração, água e o que parece um pato de brinquedo, com metade do bico. Sem afeto, sem atenção, ele segue com o focinho encostado no portão, cheirando qualquer movimentação humana. Nos cem metros finais, as mesmas crianças andando de bicicletas e gritando palavrões que eu fui aprender só no ensino médio. Na frente do estabelecimento comercial em que ganho o meu dinheiro, a pracinha do bairro, com os idosos na academia da “terceira idade”, e os usuários de drogas nos bancos, à espreita do traficante que vai trazer o consumo diário. Embora, com “outros olhos”, o que infelizmente vejo é sempre a mesma coisa, uma vida medíocre. A minha rotina também não surpreende, mas de vários ângulos vejo outras árvores.

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