Informação é coisa séria!

E se…

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E se, naquele dia, eu tivesse ficado em casa; resolvi sair, apesar da tempestade, e acabei batendo o carro. Seguro vencido na véspera, deixei pra renovar “noutro dia”; fiquei no prejuízo. E se tivesse tomado aquele ônibus pra viajar, aquele que capotou na estrada em um desastre 100% fatal. E se, em lugar de Engenharia, tivesse seguido os conselhos do tio e cursado Direito. E se, em vez de Joinville, tivesse aceitado o convite pra ir morar em Brasília. Dilemas assim (que não são verídicos, apenas exemplares), mais ou menos acentuados, se atravessam na história de todo ser humano, quase todos os dias. Entrando na idade adulta, homens e mulheres imaginam que possa existir uma fórmula qualquer que traga resposta pronta a tantas encruzilhadas. Não existe. Melhor mesmo não ficar se questionando tanto sobre o que teria ocorrido na própria vida “se” você tivesse trilhado outros caminhos. O negócio é, simplesmente, caminhar, apesar do risco (inerente à vida) de tomar o rumo errado. A boa notícia é que sempre há tempo de recomeçar.

Mulheres e sua eterna busca

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[Crônica da Ana publicada hoje no jornal A Notícia]

Esse negócio de ser mulher não é nada fácil. Tá bom, somos mais complicadas, é verdade. Em vez de esconder as mágoas e os questionamentos existenciais debaixo do tapete - ou suá-las todas numa partida de futebol, após o expediente -, ‘preferimos aterrorizar nossos maridos com o clássico “discutir a relação”…

Lance meio doido… Porque, se somos um pouco mais complicadas, é porque temos também o dom da eterna busca por viver com plenitude. Em vez de bater uma bolinha, tomar cerveja e falar de beldades, especialmente as que estão fora do alcance de nossos adoráveis varões, a turma feminina se reúne, sim, mas para papos bem mais edificantes - não raro, verdadeiras catarses de gênero…

Cabe ao homem manter acesa sua virilidade e à mulher vasculhar a própria essência… Tema longo, para esses pouco mais de 1.500 caracteres, mas há que se arriscar e deixar de lado, por momentos, a questão da violência doméstica, das diferenças salariais e da discriminação.

Há muito mais que isso em ser mulher. Que o digam as mutiladas de países africanos, as viúvas do Afeganistão, as mães sempre morrendo em morros paulistas e cariocas. Ou no Paraíso.

Mesmo sem conhecimento formal, escola ou informação básica, a essência feminina se reinventa e se projeta todos os dias, em todas as situações.

Porque no shopping ou na favela, o legal de ser mulher é a muito provável herança de nossa natureza procriadora: é, definitivamente, a consciência de que não estamos aqui a passeio.

Temos que deixar nossa marca, nossas pegadas, nossa luta - ou, quem sabe, inocular o “vírus da vida real” em nossos rebentos, para que essa busca pela plenitude e pelos valores éticos que nos mobiliza seja, um dia, saudável disputa interior de todos os sexos… E sensos.

De mulher e futebol

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Sou gremista desde o útero. Aprendi a amar o tricolor gaúcho junto com meu pai, servindo de “antena humana”, ainda quase bebê, ao segurar o fiozinho do rádio a luz em que ele ouvia os jogos, narrados pelo antológico Pedro Carneiro Pereira, da rádio Guaíba. De minha infância em Santa Maria, até hoje, o meu glorioso Grêmio já fez das suas, conquistando um montão de títulos e colorindo de azul, branco e preto, a minha trajetória pessoal. E me acompanha até hoje, quando reescrevo a vida pelas plagas e praias catarinenses.

Mas, ao contrário dos homens torcedores, que se travestem de técnicos donos da verdade e, a serviço de seu humor, incitam à reverência ou à execração pública de atletas e técnicos - muitas vezes corroborando demissões sumárias e até sem sentido - sou uma torcedora que enxerga ou procura enxergar além das quatro linhas do campo. Por isso, fico indignada quando os torcedores do tricolor carioca cortam a cabeça do técnico Renato Gaúcho que, apesar da triste derrota da final da Libertadores, levou o Fluminense a um status técnico nunca antes alcançado. Ando danada da vida também com aqueles babacas do Barcelona, pelas injustiças contra Ronaldinho Gaúcho.

Assim, ó: atletas assim chamados integrantes da elite do futebol são os mais suscetíveis a crises e desequilíbrios emocionais. Perversa, a realidade do mercado do esporte bretão (epa, que esta saiu do fundo do baú), tira do seio de suas famílias e seqüestra de suas identidades, esses quase meninos que se destacam pelo talento nato com a bola. Li esses dias que meninos de 12 anos são levados para times da Europa, para ser treinados e formados tecnicamente. No Brasil, o guri começa a mostrar talento e já sonha com os campos do velho mundo. Porque sabem que lá, terão salários bem acima dos brasileiros, aprenderão e sofrerão com mundos absolutamente diferentes, poderão ser patrocinados pelas maiores marcas e desfilar de braço dado com modelos famosas. Por vezes, serão surpreendidos em hotéis com travestis, mas isso só vai acontecer no ocaso de sua caminhada profissional. Que é exatamente quando são motivo de chacotas, injúrias, serão criticados pelos 3 quilos acima do normal, pela falta de preparo físico, pela ausência de gols, pela presença em festas…

Agora, com o time brasileiro fazendo bonito em Pequim, Ronaldinho não sai de frente das câmeras. Mas se o time tropeçar de novo e a batalha pelo ouro bater na trave, já sabem quem será o culpado. Como também já sabem quem será o herói, diante da dourada medalha. É assim perversa essa condição tão humana de confrontar sempre bem x mal. Esse maniqueísmo ideológico que nos seqüestra o direito supremo à luz da dúvida, ao calor benigno do caos interior, essas fórmulas de vida que nos impedem sempre de visitar o meio da história, em busca de nossas próprias respostas. 

Futebol, enfim, retrata os valores que regem a sociedade, como outra atividade qualquer. Ao deixar de ser ídolo, finalmente o atleta volta a fazer parte do conjunto e pára de freqüentar as páginas de jornais e as câmeras de tevê. Se não fez um bom pé-de-meia, arrisca-se, inclusive, a ter uma velhice complicada. Como qualquer brasileiro. (Ana)

Mulheres de 50

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(Crônica da Ana publicada hoje no jornal A Notícia)

A platéia, claro, é cheia de alegres cinqüentonas argentinas, em suas roupas mais que elegantes - um look que inclui muita maquiagem,  écharpes e couro, que ainda se usa bastante por lá. No palco, uma única mulher se traveste das tantas outras que chegam a meio século de vida assim, meio atônitas, sem saber direito como tudo aconteceu tão rápido. De repente, os filhos se formaram e foram embora, as rugas apareceram mais fortemente, os netos começam a bagunçar de novo a casa. Liliana Pécora, atriz e diretora, passeia pelas 5 décadas de várias personagens, em texto que, além de engraçadíssimo, é de uma profundidade ímpar. Ao mesmo tempo em que provoca boas risadas ao encenar com maestria a ida da mulher ao ginecologista - com exames e tudo -, também proporciona inquietantes silêncios ao mostrar que, aos 50 anos, algumas mulheres buscam tanto permanecer jovens, que acabam irreconhecíveis. Baseada no livro de Hilda Levy e Daniela Di Segni, a peça está em cartaz desde 2005 em Buenos Aires e já rendeu vários prêmios à atriz, uma das mais consagradas de seu país. Não é para menos. Ela, por hora e meia, consegue uma dinâmica de palco e de atuação, que prende a atenção, diverte e emociona. Para uma brasileira, apenas a parte em que cantarola jingles antigos, da década de 60, passa meio batida. De resto, são situações universais envolvendo quem chega aos 50, em distintas personagens. Lá estão a tradicional mãe judia argentina, a executiva, a intelectual, a dona-de-casa, a sarada, a fashion e a visceral pessimista, a zen budista, a desleixada e a militante política, reunidas num encontro, mais de 30 anos depois, de colegas de escola. E tudo acontece justamente no dia do aniversário de uma delas - simplesmente magistral o início, quando a aniversariante se prepara para a festa em que vai rever as colegas. Experimenta trocentas roupas e percebe que nenhuma de seu tempo de estudante ainda serve… Fica insegura, imaginando que as outras estarão bem mais “conservadas” que ela, decide outras tantas vezes que não vai… Mas acaba comparecendo e inaugurando uma situação que retrata, com uma fidelidade preocupante, as várias nuances de uma mulher de 50 anos: para algumas, a eterna busca pelo príncipe encantado, para outras, a luta cotidiana contra a balança, para tantas mais, as visitas regulares ao esteticista e cirurgião plástico. Mulheres sempre à beira de um ataque de nervos, que debatem-se sobre seus problemas , cavalgam a passagem do tempo, rebelam-se contra a velhice que, afinal, como disse a própria Liliana, é este o momento de optar pelo viver - que a vida, mesmo, recém está começando. 

Louca vida

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(A crônica quinzenal da Ana em A Notícia)

Nasceu no glorioso ano de 1958. Bossa Nova, Brasil campeão de futebol pela primeira vez. Mas nasceu na Argentina de Gardel e Piazzola, para não citar maiores rivalidades. Foi uma menina feliz na infância portenha, classe alta, todos os confortos da vida, todos os desconfortos da alma - saberia bem mais tarde.

Cruzou a fronteira definitivamente, pouco mais de 20 anos. Veio por amor a um brasileiro com quem decidiu compartilhar a existência e o “portunhol”. Uma história de perseguições, detetives e capítulos insanos de guerras familiares que culminou com os pais deserdando a insistente mocinha, que ficou sem sua coleção dos Beatles, seu equipamento de esqui e sua história.

No Brasil, esbravejou de novo contra sua própria natureza e concebeu quatro lindos filhos, apesar de ser RH negativo - o que tornava suas aventuras maternais ameaçadoras. Ao lado de seu amor - e sem nenhum apoio de Buenos Aires - , ela alçou um nem sempre tranqüilo vôo nas plagas verde-amarelas. Caminhou serena, cidade afora, levando a tiracolo o marido, os filhos, os sonhos de uma vida que não pôde ser vivida em sua própria origem.

Vez por outra, lembra de seus pais, agora velhinhos, que não conhecem os lindos netos brasileiros. Tentou, durante mais de duas décadas, se reaproximar. Teve a ajuda da irmã, das sobrinhas. Mas os pais permaneceram irredutíveis. Para eles, ela morrera.

Engraçado imaginar isso, né? Um médico de renome e sua mulher decidem assim, do nada, que não querem mais ser pais da filha mais nova, porque ela escolheu casar-se com um brasileirinho espetacular. A razão, em bom português, foi o fato de ele ser portador de graves seqüelas físicas causadas por uma substância chamada talidomida que, na década de 60, fez vítimas no mundo todo.

Publicitário - como também seu filho mais velho - e funcionário de um importante banco público, esse pequeno grande homem faz história ao mexer-se na cruel, discriminatória e desigual sociedade com desenvoltura e consciência de seu valor. Dele, inclusive, partiu a idéia de, quase 30 anos depois, comemorar o aniversário da mulher em Buenos Aires. Nada de procurar a família, apenas as sobrinhas e a irmã dela vão se associar à homenagem. Mas tudo de patrocinar a ela uma visita à sua infância, suas origens, sua identidade, seus lugares especiais.

Um retorno despido de mágoas e ressentimentos, pleno de significação, mas que ainda não encontra o ponto onde o afeto de seus pais se rompeu. “Quem sabe na próxima encarnação”, sorri a moça, num zen-budismo inacreditável. Fosse eu, assim, 30 anos de gélida irredutibilidade, não sorriria conformada. Riria à Dercy. E fecharia o pano.

A sós, na multidão

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(A mais recente crônica da Ana, aqui, no jornal A Notícia)

No meio do burburinho dos cafés que adoravam freqüentar, dois personagens viajavam por seu próprio intelecto. Um homem e uma mulher singulares, com um casamento diferenciado até para os padrões de hoje, Jean-Paul e Simone cumpriram, vida afora, a saga do escritor, a da solidão. Solidão absoluta, sim, mas uma opção pessoal e lúcida, que os levaria, tempos depois, a invadir, com sua própria essência, mentes e corações. A necessária solidão.

A imagem é a que me persegue quando leio sobre a queda de mãe e filha em um grande shopping da cidade. E isso porque a solidão deixou de ser uma opção para virar contingência social. Emparedados pela violência urbana, espiamos e silenciamos, por detrás das persianas, ao pedinte que chega em busca de pão. Entramos e saímos de casa, mal pronunciando um apressado bom-dia aos nossos vizinhos. No trabalho, a marca da produtividade nos transforma em ilhas. As muitas opções de lazer individual nos locupletam. Somos experts em seriados de tevê, em jogos de computador, em revistas de fofocas - porque, embora na clausura, queremos saber do outro, se sua desgraça é maior que a nossa. Isso, sim, nos conforta. No carro, janelas devidamente escurecidas, seguimos contemplando a vida passando ao largo. Pior: às vezes somos confundidos com bandidos e temos o carro metralhado. Mortas as crianças de nossos corações.

A película, que deveria nos proteger, nos faz vítimas de uma polícia cega. E somos ainda mais solitários na nossa dor, que ninguém se solidarizaria a ponto de sofrê-la conosco. Recebemos apoios, movimentos contra a violência, lenços brancos… Mas ninguém nos atenua as feridas, que não há tempo para isso, há que se correr a Brasília e apoiar uma novidade “daquelas”: é proibido dirigir sob efeito de bebida alcoólica. Isso não seria ululante, de tão óbvio? Precisamos de punições para eleger a vida, vejam só. Muito louco isso.

No shopping, cai a criança, cai a mulher, ninguém sabe direito o que aconteceu - sobretudo, porque não prestamos atenção no outro. Sabemos exatamente a roupa que aquela moça mais “fashion” estava usando naquela tarde. Mas não temos o menor interesse em saber quem ela é - embora adorássemos descobrir em que loja comprou aquele sapato maravilhoso. Um shopping que, em tese, deveria ser um lugar de convivência, se torna uma fábrica de pequenas ilhas ambulantes que entram e saem de lojas, cinemas e restaurantes, sem ligar para as outras tantas vidas, querendo viver também. E por que será que quando alguém cai de um prédio, no meio da rua, todo mundo corre, socorre, meio que morre junto?

Ausências

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Crônica da Ana, publicada n´A Notícia, dia 27 de junho.

Não se sabe bem por quê. Mas há aqueles tempos em que nos dispersamos de pessoas que nos são importantes. Nem sempre a correria, a pressa do viver explica esse quase não-viver que é o abandono de gente que se ama. Às vezes é só uma necessária ausência de nós mesmos o que nos priva do outro. Não é desamor, descuido ou desatenção. Pode ser um urgente recolhimento, um espaço de mergulho em nós mesmos ou em algum projeto mais complicado o que nos absorve. Mas não nos absolve da dívida da presença, que nem sempre é física nem sempre é explícita.

É aquela presença doce de nossos amigos regiamente guardados no coração. Nem um e-mail, um telefonema ou um torpedo de celular, às vezes, é tão importante quanto esse sentir nosso amigo em nós - esteja ele onde estiver. Daqui a pouco, haverá a chance, a oportunidade e a alegria da reaproximação - e então nos redescobrimos os mesmos amigos de sempre, como se o tempo não tivesse passado, como se ainda fôssemos exatamente os mesmos.

Acontece mais fortemente com quem está longe no tempo e no espaço, com alguns especiais amigos de infância e juventude. A vida nos distancia, mas as afinidades e o afeto vencem quilômetros e quilômetros, meses, até anos. E reencontrar alguém com quem convivemos de forma tão próxima nos faz reviver aquela nossa vida que, de longe, parece até outra. Seremos mesmo outros nessas retomadas.

Teremos os cabelos mais grisalhos, a pele com menos viço, olheiras em alguns, calvície em outros, experiências e vivências diferentes. Mas é incrível como conseguimos resgatar em nós o que fomos. Porque, por detrás dos óculos de lentes mais grossas, dos cabelos brancos ou escassos, das tragédias e felicidades vividas, se esconde, ainda, aquele franco afeto que ajudou a nos moldar o perfil e a colorir a existência.

Nesses reencontros, às vezes muito breves, conseguimos retroceder sobre nossos próprios passos e descobrir em nossas pegadas algumas flores, muitos perfumes, ramos de vida e de contentamento que, na caminhada de nossa rotina, muitas vezes nos escapa ao apressado olhar. No abraço apertado de toda uma existência revivemos nosso tempo de desapego e saudável irresponsabilidade para com o relógio. É então nossa chance de reverenciar esse passado tão rico e garimpar dele os diamantes tantos de nossa redenção. Essa, a força dos afetos que atravessam a barreira do tempo e vez em quando nos revisitam, para nos ajudar a ser nós mesmos, outra vez.

 

Quando eu for bem velhinha

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Crônica da Ana, publicada n´A Notícia, dia 12 de junho.

Quero percorrer boas calçadas, que me ajudem a manter o delicado equilíbrio e a caminhar olhando para a frente, degustando a vida… Quero poder atravessar a rua sem sustos, porque os motoristas, independentemente do sinal, estarão atentos e cuidando de mim… Quero curtir o sol do verão com meus netos, bisnetos, por detrás de um lindo par de óculos escuros, comprados com meus próprios recursos, sem financiamentos a perder de vista, descontados da eternum de meus proventos - apenas a justa contrapartida da sociedade a meus longos anos de dedicação ao trabalho e à produtividade, que ainda não sei bem para onde.

Eu, sim, sei para onde irei, quando for assim, bem velhinha… Irei a bares com MPB e ninguém vai se espantar de me ver ali, altas horas, nem mesmo se eu tomar um clássico e merecido pilequinho, brindando Chico, Tom, Vinícius ou João Bosco. Quando eu for bem velhinha, não quero esperar na fila para ser atendida por meu geriatra - que há de se chamar João Roberto. Nem para fazer os exames que ele pedir. Estarei cansada, com os movimentos mais lentos, todas as outras pessoas perceberão isso e não reclamarão de me ceder a vez. Até porque, o atendimento em saúde será eficiente e seguro, mesmo que eu não o tenha, o tal seguro. E se, ao sair dali, precisar de remédios, quero entrar na primeira farmácia e ter a certeza de que, se eles não tiverem a medicação, mandarão entregar depois, na minha casa - sem me cobrar por isso.

Aliás, minha casa será um lugar tranqüilo e terno, colorido e confortável. Terei meu cantinho de música e leitura, para eu ler e cantar, ouvir música, música… Há de haver um bom home theater para assistir a meus DVDs preferidos, que nunca gostarei de novela, tenho certeza, ainda que fique senil. Terá também o espaço dos netos, da irreverência e da alegre desordem que nos inspira e preenche a alma.

Certamente irei a shows, teatro e cinema com meu velho. Também irei mais à feira, comprarei produtos de qualidade a ótimos preços. Terei sempre a ajuda de algum jovem na hora de carregar as sacolas, e ele não vai me assaltar nem ficar de olho nos trocados que guardarei na eternamente surrada carteira.

Quando eu for bem velhinha, serei reconhecida e muito respeitada nas ruas - não pela trajetória de minha mocidade ou por eventual eco social de alguma ação, mas apenas pela dignidade que meus cabelos brancos certamente vão reclamar. Aliás, preste bem atenção em mim porque, na verdade, quando eu for assim, bem velhinha, mil perdões, mas não terei cabelos brancos, porque seguirei religiosa e insistentemente em tons de castanho-cobre. E só quem puder mirar na essência, os descobre, alvos sinais de teimosia e plenitude.

Sobre um certo silêncio

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[Crônica quinzenal da Ana Ribas Diefenthaeler, publicada dia 29 de maio na página 3 do jornal A Notícia, de Joinville]

Há momentos em que a alma grita, mas a palavra cala. O mundo ao redor se tinge de cinza - e a palavra segue silente. A chuva interior provoca, rios atravessam a garganta, arranham, maltratam, congestionam o olhar… A palavra some. A emoção força as fibras do coração, a confusão de sentimentos se funde no cérebro, que não ousa tentar organizar o caos. E a palavra se esconde.

Lya Luft fala, em algum de seus livros, da letal incomunicabilidade de certas emoções - que, não raramente, rompe relações de décadas, esfria amizades de toda uma vida e, o que é muito pior, divorcia a pessoa dela própria. Não, não se trata da depressão, a palavra da moda - ao menos não na forma em que o mal da modernidade vem sendo conceituado.

O silêncio a que me refiro existe por essência. Acredito que atormentou de Freud a Simone, a amada de Jean-Paul, de John Lennon a Churchil, de Dali a Alice Cooper. Certamente foi presença marcante na poesia de Leminski e Florbela Espanca, na trajetória musical de Renato Russo, Cazuza, Elis, Raul Seixas, Janis, Janis.

Este é, pois, o silêncio da impossibilidade de reagir diante de certas dificuldades - sejam externas ou, as piores, as fabricadas por nós mesmos. É uma espécie de luto sem morte, de morte sem adeus. Uma verdadeira tragédia que desilumina e isola. Que encontra obstáculos aparentemente intransponíveis onde antes havia tanta luz.

A palavra sangra, solitária, aprisionada pela alma em chamas. Há que se aprender a conviver com esse verdadeiro colapso emocional, resgatando em nosso léxico interior a melhor tradução do que parece tão intrincado e difícil de desenlear. As ferramentas disponíveis para isso também não são fáceis de utilizar - vão do reconhecer a insustentável leveza do ser a resgatar-se dos despenhadeiros da mediocridade que se encerra em fórmulas prontas do viver - há tantas delas nas prateleiras das livrarias, nas tardes de tevê…

Resgatar a comunicação com o exterior pode ser árduo desafio de toda uma vida. Pode ser até o que dá sentido a ela. À vida.

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