(A crônica quinzenal da Ana em A Notícia)
Nasceu no glorioso ano de 1958. Bossa Nova, Brasil campeão de futebol pela primeira vez. Mas nasceu na Argentina de Gardel e Piazzola, para não citar maiores rivalidades. Foi uma menina feliz na infância portenha, classe alta, todos os confortos da vida, todos os desconfortos da alma - saberia bem mais tarde.
Cruzou a fronteira definitivamente, pouco mais de 20 anos. Veio por amor a um brasileiro com quem decidiu compartilhar a existência e o “portunhol”. Uma história de perseguições, detetives e capítulos insanos de guerras familiares que culminou com os pais deserdando a insistente mocinha, que ficou sem sua coleção dos Beatles, seu equipamento de esqui e sua história.
No Brasil, esbravejou de novo contra sua própria natureza e concebeu quatro lindos filhos, apesar de ser RH negativo - o que tornava suas aventuras maternais ameaçadoras. Ao lado de seu amor - e sem nenhum apoio de Buenos Aires - , ela alçou um nem sempre tranqüilo vôo nas plagas verde-amarelas. Caminhou serena, cidade afora, levando a tiracolo o marido, os filhos, os sonhos de uma vida que não pôde ser vivida em sua própria origem.
Vez por outra, lembra de seus pais, agora velhinhos, que não conhecem os lindos netos brasileiros. Tentou, durante mais de duas décadas, se reaproximar. Teve a ajuda da irmã, das sobrinhas. Mas os pais permaneceram irredutíveis. Para eles, ela morrera.
Engraçado imaginar isso, né? Um médico de renome e sua mulher decidem assim, do nada, que não querem mais ser pais da filha mais nova, porque ela escolheu casar-se com um brasileirinho espetacular. A razão, em bom português, foi o fato de ele ser portador de graves seqüelas físicas causadas por uma substância chamada talidomida que, na década de 60, fez vítimas no mundo todo.
Publicitário - como também seu filho mais velho - e funcionário de um importante banco público, esse pequeno grande homem faz história ao mexer-se na cruel, discriminatória e desigual sociedade com desenvoltura e consciência de seu valor. Dele, inclusive, partiu a idéia de, quase 30 anos depois, comemorar o aniversário da mulher em Buenos Aires. Nada de procurar a família, apenas as sobrinhas e a irmã dela vão se associar à homenagem. Mas tudo de patrocinar a ela uma visita à sua infância, suas origens, sua identidade, seus lugares especiais.
Um retorno despido de mágoas e ressentimentos, pleno de significação, mas que ainda não encontra o ponto onde o afeto de seus pais se rompeu. “Quem sabe na próxima encarnação”, sorri a moça, num zen-budismo inacreditável. Fosse eu, assim, 30 anos de gélida irredutibilidade, não sorriria conformada. Riria à Dercy. E fecharia o pano.