Matéria da Agência Notisa (science journalism – jornalismo científico)
“Nomadismos contemporâneos: um estudo sobre errantes trecheiros” é o título do livro, lançado pela Editora Unesp, que procura desvendar o universo de pessoas que andam nas estradas de cidade em cidade e são “pouco vistas” pelas pessoas em geral do universo cotidiano. Em entrevista à Agência Notisa, seu autor – psicólogo, mestre em psicologia, professor universitário e integrante do Grupo de Pesquisa Psicologia e Instituições da Unesp de Assis – esclarece questões sobre o assunto que, segundo ele, ainda não foi abordado em publicações nacionais ou internacionais.
Notisa – O senhor poderia conceituar errantes trecheiros?
Eurípedes – Trecheiros são indivíduos que perambulam pelas rodovias a pé, de cidade em cidade, sobrevivendo de trabalhos temporários e de eventuais ajudas filantrópicas. Diferenciam-se dos andarilhos de estrada que, embora perambulem também a pé pelas rodovias, não adentram as cidades e nem recorrem a ajudas filantrópicas, pois romperam definitivamente com os modos de vida sociais. Desse modo, os trecheiros são indivíduos que se encontram num limiar de transição, pois, à medida que passam os anos, a falta de perspectivas futuras em relação a trabalho e emprego fixos se acentuam e a tendência é se tornarem andarilhos de estrada devido às condições miseráveis em que vivem.
Notisa – Seu livro descreve casos individuais. É um estudo qualitativo? Qual o universo investigado: região do Brasil, estado, cidade, bairro etc?
Eurípedes – Perfeitamente. Trata-se de uma investigação de cunho qualitativo em que entrevistamos 16 trecheiros do sexo masculino, em uma instituição assistencial na cidade de Assis (estado de São Paulo). Nas entrevistas, procuramos identificar os motivos que os levam a abandonar a vida sedentária por uma vida nômade, os modos de sobrevivência no cotidiano das estradas, quais as perspectivas futuras etc.
Notisa – Qual é o panorama desta categoria errantes trecheiros em outros países ou continentes? Existem estudos similares nacionais e internacionais?
Eurípedes – Pelo que sabemos, nossa investigação é inédita no Brasil e não encontramos outras publicações em âmbito nacional e internacional.
Notisa – Quais os principais achados em termos individuais e coletivos (psicossociais)? Quais as causas que identificou ou aponta como hipóteses para a geração deste quadro?
Eurípedes – Resumidamente, poderíamos dizer que há dois fatores fundamentais que potencializam o sujeito ao nomadismo: o primeiro está relacionado a fatores socioeconômicos como desemprego prolongado, ausência de moradia e mão-de-obra desqualificada; o segundo está associado a fatores sócio-afetivos como infidelidade conjugal, morte dos pais e violência familiar. Verificamos também que, diante de tantas adversidades, o uso crônico de álcool é bastante acentuado e companhia inseparável desses sujeitos no cotidiano das estradas.
Notisa – Como foi o processo de produção do seu livro e qual o público alvo ao qual se destina?
Eurípedes – O livro é uma versão resumida de minha dissertação de mestrado defendida na Unesp (Universidade Estadual Paulista), Campus de Assis (SP) e se destina ao público acadêmico, especialmente o das áreas de ciências humanas e sociais (psicologia, sociologia e antropologia), embora possa ser muito bem aproveitado pelo leitor comum que se interessa em compreender os problemas sociais da atualidade. Além de ser vendido pelo site da editora, o livro estará disponível em breve nas principais livrarias do país e ainda não temos previsão de lançamentos em eventos.