Depende de nós!
Coisas da vida, Ideias Seja o primeiro a comentar »[Artigo do Guilherme publicado hoje no jornal A Notícia]
O melhor momento da 8ª Feira do Livro de Joinville durou menos de uma hora. Tempo necessário para o teólogo e professor Leonardo Boff sacudir a plateia de duas mil pessoas com um discurso que oscilou entre o apocalipse e a esperança. Catarinense de Concórdia, palestrante disputado em eventos internacionais, o ex-padre foi um dos mentores da Teologia da Libertação, até que, nos anos 1980, chegou a ser condenado pelo Vaticano por questionar a hierarquia da Igreja Católica. Hoje, preserva o inconformismo na reflexão sobre os caminhos para “Salvar o Planeta”, como se denominou sua exposição em Joinville.
“Nossos filhos vão nos amaldiçoar, dizer ‘vocês sabiam e nada fizeram’”, profetizou Boff, surpreendendo o público ao advertir que, sim, o mundo que conhecemos vai “acabar” se não houver mudanças radicais – nas pessoas comuns, nas empresas, nos governos. Embasou o raciocínio sobre essas mudanças em sete tópicos centrais: sustentabilidade (“temos estes recursos e vamos repartir; seremos socialistas, não por ideologia, mas por sobrevivência”), cuidado (“o orientador de nossas ações”), respeito a cada ser, cooperação, solidariedade (“sem ela, jamais superaremos a crise”), compaixão e espiritualidade (“a dimensão do profundo que há em nós, o encontro com o mistério do mundo”).
A assistência, como era de se esperar, aplaudiu de pé. Um cidadão confessou: “Dá até medo”. Outros tantos se dispersaram trocando impressões sobre o chamamento do teólogo, que contraria, em essência, a ideia de que o futuro do planeta depende única e exclusivamente das grandes ações e das políticas públicas. Estas são vitais, claro, mas precisam vir acompanhadas da conscientização irrestrita de cada indivíduo sobre seu papel no equilíbrio social, não abusando do que a natureza tem a oferecer, consumindo com parcimônia, revendo atitudes cotidianas. Atitudes miúdas como jogar o lixo no lixo – diferentemente do que muitos fizeram com seus copinhos plásticos e latinhas de refrigerante, espalhando-os pelo piso da Feira do Livro, minutos depois de ouvir Leonardo Boff. Será que ouviram direito?