Claro que, com esse título, só se pode falar do filme de Tom Hooper, que concorre ao Oscar no próximo sábado, que conta a história do rei George, pai da atual rainha da Inglaterra, que tinha sérias dificuldades para falar em público. Mas a ideia nessa reflexão é extrair uma visão um pouco mais abrangente que o desafio real: a comunicação constrói a imagem?
“Of course!” O caso do personagem de Colin Firth é emblemático nesse sentido. Ele era um príncipe prestes a se tornar rei, e demonstrava dificuldade para contar, continuamente, uma história para as filhas. Exposto a situações em que era obrigado a falar a milhares de pessoas, simplesmente calou.
O problema pessoal de alguém para falar em público, em si, não é assim tão sério. Há muita gente com dificuldades fonoaudiológicas que é bem sucedida pelo mundo. O problema é quando esse alguém precisa representar publicamente uma instituição (como era o caso de George). Seu maior terror, como expresso na película, era representar de maneira inadequada a sua dinastia, e todos os nobres que o antecederam no trono.
As “técnicas pouco ortodoxas” de Lionel Logue, personagem de Geofrey Rush, para curar a gagueira do rei são, na verdade, versões primitivas do que se aplica, atualmente, nas seções de media training, que abrange não apenas a fala, mas sim todo o processo global de construção do discurso, e a maneira mais adequada de apresentá-lo com firmeza e tranquilidade.
A imagem de um rei que não consegue falar seria, de fato, devastadora para a instituição da Coroa. O mesmo acontece hoje, nas grandes organizações: um executivo ou porta-voz que não consegue se expressar bem, que faz feio em discursos, desliza em entrevistas e na relação com a imprensa, não mancha apenas a sua própria imagem, cria problemas institucionais.
Por isso, se a ajuda de Lodge ao rei George foi tão indispensável a ponto de eles serem as únicas pessoas na sala em que a Inglaterra declarou guerra à Alemanha, a ajuda de um profissional de comunicação é dispensável a um gestor de empresa, para aprender a se portar de maneira satisfatória em situações de exposição? Assim sendo, “God save the media training”, porque sem ele, haveria rei, mas não haveria discurso.