Pesquisadores defendem que ao qualificar toda pornografia como expressão da dominação do homem sobre a mulher, a imensa variabilidade da sexualidade humana é esquecida.

AGÊNCIA NOTISA – Publicado ano passado na revista Psicologia: Reflexão e Crítica, o artigo “Debates feministas sobre pornografia heteronormativa: estéticas e ideologias da sexualização” se propôs a discutir os argumentos utilizados por feministas que se encaixam na classificação antipornografia ou pró-censura. Para os autores Pedro Pinto, Maria da Conceição Nogueira e João Manuel de Oliveira, do Centro de Investigação em Psicologia da Universidade do Minho (Portugal), a linha de pensamento de tal grupo ignora a multiplicidade de significados que pode haver na produção pornográfica, tendo o trabalho o objetivo de situá-la “numa fenomenologia mais ampla e reflexiva”.

Segundo o artigo, a defesa de feministas pela abolição da pornografia teria começado ainda nos anos setenta do século 20. Para justificar o porquê de tal banimento ser necessário, elas afirmavam que a pornografia era “uma evidente expressão da opressão masculina, feita por homens para homens, num continuum ideológico da hegemônica cultura heterossexista”, percepção influenciada por pesquisas psicossociológicas que diziam serem homens naturalmente agressivos, característica potencialmente reforçada “pela exposição a conteúdos pornográficos caracterizadamente misóginos”.

Dessa forma, o consumo de pornografia é visto como algo necessariamente “opressivo, obsceno e violento”, o que, na visão dos pesquisadores, é um pensamento que exclui uma “multitude de significados e re-interpretações”. “Estas feministas ter-se-ão esquecido que, quando nos falam de ‘pornografia’, estão afinal a retratar um (único) padrão hegemônico de representação da sexualidade, completamente imbuído numa ideologia predominantemente heterossexista”, acreditam.

Assim, afirmam os autores, a defesa da censura não só não é eficaz por conta de sua arbitrariedade – cujos perigos de tal ação autoritária são qualificados como “evidentes” -, mas também porque, ao colocar toda pornografia necessariamente como uma manifestação da força do homem sobre a mulher, a mantém “aprisionada numa irremediável capacidade de fixar as identidades e as práticas sexuais segundo rígidos códigos de gênero”. Dessa forma, “se o projeto feminista consiste, antes de mais nada, na luta pela igualdade e liberdade das pessoas, as exaustivas retóricas daquele debate (pró-censura) serviram mais para desmembrar essa luta do que para a fortalecer”, afirmam os autores no estudo.

O artigo defende que, mais importante do que censurar, é a tentativa de abrir espaço para manifestações da sexualidade humana que vão além da pornografia heternormativa. Antídoto mais eficiente do que a mera proibição seria, argumentam os pesquisadores, reproduzindo trecho do trabalho “Multitudes Queer: notas para uma política de los ´anormales’”, de 2004, “a produção de representações alternativas da sexualidade, feitas a partir de olhares divergentes do olhar normativo”. Coisa que já é feita por alguns grupos: “o feminismo anti-censura (também chamado pró-pornografia, pró-sexo, ou anti-antiporn) sublinha a possibilidade de criação de novas pornografias feitas por mulheres para mulheres, postulando assim a existência de um espaço alternativo dentro daquela indústria”, destacam no artigo.

O trabalho na íntegra pode ser lido em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S010279722010000200020&lang=pt

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