Depois de um ano e alguns meses de especulação, finalmente o Brasil descobriu quem será a pessoa a que lhe governará nos próximos quatro anos. Nós, aqui na Mercado, durante o processo eleitoral, discutimos várias vezes os “assuntos candentes”, as perspectivas, as novidades e as velharias, tudo. Mesmo tendo uma equipe pequena, tivemos votos declarados em Dilma, Serra e Marina, representando bem, num micro-espaço, a importância da multiplicidade para a nossa democracia brasileira.

Uma eleição nacional reproduz votações muito menores, apenas numa proporção incontavelmente maior e mais impactante da vida do país. Votar no presidente, guardadas as proporções, é quase como votar no síndico de um grande condomínio: alguns preferem que seu vizinho seja o eleito, para conseguir, com mais facilidade, pleitear o que deseja, sem precisar sair do seu próprio bloco; outros preferem que o síndico esteja o mais longe possível, em primeiro lugar porque todos os seus vizinhos, do alto da sua chatice, seriam péssimos síndicos, e em segundo lugar porque, na opinião dessas pessoas, um síndico é naturalmente uma pessoa chata, e os chatos, bom, é melhor que estejam longe, quanto mais longe melhor.

O problema é que, quando o sentimento de segunda ordem acima descrito é reproduzido no país, cria-se uma massa de gente insatisfeita que não percebe que a vida política é feita de vitórias e derrotas. Gente desse tipo acha inexplicável e inaceitável que existam opiniões diferentes das suas, e quando as percebe, não tem capacidade para discutir ideias: sabe apenas atacar quem argumenta do outro lado, diminuindo-o.

Como era previsível, conhecendo o Brasil, o Twitter está abrigando, logo após a eleição de Dilma Rousseff, um movimento xenofóbico, identificado pela tag #nordestisto (com essa grafia mesmo), contra o Nordeste do país, que fez forte sustentação à votação da presidente eleita. Os comentários não procuram, como num processo democrático saudável, contrapor as ideias da maioria que se formou. A preferência é, a partir das estofadas cadeiras em frente aos Personal Computers do Sudeste e do Sul, por fomentar pequenezas, incentivar o extermínio massivo da população nordestina, e chamá-la de burra, ignorante, analfabeta e preguiçosa. Abaixo, algumas das “pérolas”:

“só nordestinos fdp pra vota na dilma! nordestino num serve pra NADA DE UTIL vem pra sp ENCHE O SACO e vota na merDILMA”

“FHS fez um governo para ricos? se f… sou rica msm!”

“Nordestino falando q tem energia elétrica e internet em casa,é q nem suíço se alistando na marinha suíça … apenas uma lorota”

“#nordestinos aprendendo a usar o twitter!!!! kkkkkk nossa ja chego internet la???”

“#nordestinos SE VCS TEM O DIREITO DE F… O PAIS EU TENHO O DE EXPRESSA A MINHA INDIGNAÇAO”

“#nordestinos Nordestinos continuam a twitar em sp …. ja q no nordeste continua nao tendo luz elétrica e nem internet”

É difícil conciliar o irreconciliável. O Brasil é grande demais para ser unitário, e seu povo é diferente demais para ser unido sob uma só cultura. Porém, é unido por ser diferente, e precisar saber que é só essa diferença que sustenta o nosso país da maneira que ele é. Há quem argumentará que o Brasil, do jeito que está, está horrível. Mas quem diz isso se esquece que consegue sorrir nesse país horrível, que é da sua terra que retira seu alimento, que é na sua economia que se sustenta.

Quem fomenta a xenofobia não o faz por estar insatisfeito: faz porque é intolerante e ranzinza. E a essas mesmas pessoas, cheias de si, há que se desejar que um dia tomem consciência de que, se no Brasil elas são “ricas”, para muitos nos EUA são “apenas” latinos, para outros muitos na Europa são “apenas” tropicais, na Argentina são “apenas” negritos, e no Oriente Médio são “apenas” o inimigo. Provarão do mesmo preconceito que destilam, e sofrerão. E morrerão brasileiros, iguais a todos que criticam, iguais na diferença.