Na turma de Redação Jornalística do Ielusc, o professor convidou a turma para produzir relatos sobre cenas e situações cotidianas vistas “com outros olhos”, buscando experimentar o que seria a “perspectiva do repórter” sobre os fatos narrados (sempre diversa, mais ampla, mais minuciosa). Vieram retornos interessantes, como o que segue, da Juliana Nogueira Gonçalves. Vejam aí:
O despertador toca. 7h25. Engraçado, mas o meu relógio está atrasado dez minutos, o que significa que são 7h15 e, mesmo sabendo disso, programo a opção “soneca” para dez minutos, o que volta às mesmas 7h25. Faz parecer que dormi um pouco mais. Meu trabalho não é dos melhores, mas fica a quatro minutos da minha casa e é permitido ir de chinelo. E é de Havaianas que faço sempre o mesmo caminho. Subo o morro, atravesso a rua, viro à esquerda, continuo por cem metros e bato o cartão. Passadas quatro horas de trabalho, enfim a uma hora sagrada de almoço. A fome aflora o instinto de sobrevivência das cavernas que há em nós. Chego em três minutos para o prato que espera ser ocupado com o rotineiro purê de batata. Com o estômago cheio, ou pelo menos saciado, é hora de enfrentar mais quatro horas da jornada trabalhista. E é nessa hora que a menina da bicicleta azul aparece com a cara afobada. Como se estivesse em cima da hora. Ela trabalha na papelaria da rua de baixo. Já a vi algumas vezes, não sei seu nome, nem em qual casa mora. Mas sempre cruzo com ela nesse horário. Eu, do lado direito; ela, do esquerdo. E hoje eu também do lado esquerdo, ela desvia de um carro ao meu lado. As lajotas que estão do lado direito da minha rua, bem em cima do morro, estão soltas. Na frente, a residência é habitada por um caminhoneiro, e o caminhão estacionado na frente, com o tempo, afundou e soltou as lajotas. O que me faz desviar sempre, já que costumo tropeçar nelas. Na esquina, a construção de um prédio. E a árvore que faz uma boa sombra atrapalha as janelas do edifício, o que me faz suspeitar que logo a cortarão. Percebi porque nunca vou do lado esquerdo, é que na outra esquina tem uma verdureira, e os restos de repolho, e folhas de beterraba sempre ficam na calçada. O cheiro é ruim. Atravessando a rua, vejo o enorme e magrelo cachorro que mora com seu dono numa kitinete. Vi poucas vezes o dono, mas o cachorro todo dia, já que o espaço é muito restrito. Sinto dó dele. É um daqueles tipos de cães que servem pra ficar correndo no campo e próprios para praticar atividades físicas. E o que ele tem é uma casinha, com um pote de ração, água e o que parece um pato de brinquedo, com metade do bico. Sem afeto, sem atenção, ele segue com o focinho encostado no portão, cheirando qualquer movimentação humana. Nos cem metros finais, as mesmas crianças andando de bicicletas e gritando palavrões que eu fui aprender só no ensino médio. Na frente do estabelecimento comercial em que ganho o meu dinheiro, a pracinha do bairro, com os idosos na academia da “terceira idade”, e os usuários de drogas nos bancos, à espreita do traficante que vai trazer o consumo diário. Embora, com “outros olhos”, o que infelizmente vejo é sempre a mesma coisa, uma vida medíocre. A minha rotina também não surpreende, mas de vários ângulos vejo outras árvores.