Revirando arquivos antigos, reencontro uma carta escrita por meu irmão há, talvez, 10, 12 anos. Meu único irmão menino – somos 5 mulheres – ,  em resposta a algo que eu lhe teria falado, me escreveu, entre outras coisas bonitas, que a vida é uma sequência nem sempre lógica, nem sempre  cronológica, de fatos e fases, que precisam ser “amarrados” por nossa intervenção. Ou seja, apenas de nós depende se esses elos serão de amor, de mágoas, de ressentimentos, de otimismo, de vida ou desvão.

Ou, simplesmente, não serão – e então passará ela, a vida, abanando para nós, nos deixando para trás. Mas uma das coisas mais bacanas que ele falou está um parágrafo adiante: “Não estou programando meu cérebro para escrever esta mensagem. Eu estou (ou sou) esta mensagem. Isto é maravilhoso, não? Você pode me ver neste monte de letrinhas.” Morava na Espanha, àquela época, este meu irmão. Sentíamos muito a falta um do outro já que sempre fomos muito ligados. O que chama a atenção, nesta frase, é exatamente esta capacidade que temos de nos “projetar” em meia dúzia de linhas, como se a alma nos escorregasse, teclinhas adentro.

“Ser” o que se escreve, mostra o quanto se busca uma verdade para nos nortear os passos. Procurar esta verdade em tudo o que se faz não é fácil. Muitas vezes, é bem mais tranqüilo “pular” essa etapa de busca e ir tocando, empurrando a vida com a barriga.

Mas, assim, deixaríamos de degustar o que existe de mais encantador nesse desafio às vezes intolerável do viver, que é justamente alguns “não-viveres” que nos assombram. Isso acontece quando nos omitimos de nós mesmos, quando deixamos passar uma chance de ser solidários, de reivindicar nossos direitos, ou mesmo de errar, tentando acertar no alvo da intolerância, do preconceito, dos dogmas e doutrinas que nos cegam e nos fazem, às vezes, reféns da ignorância. Não é fácil encontrar esse meio-tempo existencial, em que nos retemperamos da verdade, sem nos ausentar da vida. Esse estado de ânimo, se levado ao extremo, pode nos fazer desistir. Muita gente acaba desistindo. E se ausentando de si, mesmo seguindo na vida.

Ana Ribas Diefenthaeler

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