Noite a fora (o contrário de noite a dentro)

Denise Aidar Warnecke

Eu, o cabelo da minha mulher e a calça jeans da minha filha saímos para jantar. A chuva ia cair, o cabelo da minha mulher esperava que não. A calça jeans da minha filha não tinha importância.

As lanternas do carro piscaram nervosas na saída.

Os óculos de gato das gêmeas na mesa ao lado lembravam minha avó. Engraçado, perguntei-me, porque meninas tão novas escolheram uma peça tão nostálgica.

O cabelo da minha mulher não respondeu minha pergunta o que vamos comer. A calça jeans da minha filha não tinha importância.

O cozinheiro pirata fazia malabarismos a duas mãos com a pizza, por trás do vidro. O avental do garçom movimentava-se sem parar entre as mesas. A bandeja da garçonete hesitou, na passagem por um corredor estreito e disputado com outras quatro.

O cabelo da minha mulher mexia-se em sinal de não acredito. A calça jeans da minha filha não tinha importância.

O teclado da maquineta de cartão do gerente gemeu em êxtase.

Fomos para o carro. O cabelo da minha mulher assentou-se no encosto do banco. A calça jeans da minha filha não tinha importância.

E o pára-brisa do veículo agitou-se em sinal de não acredito.