[Artigo do Guilherme publicado no dia 8 de agosto pelo jornal A Notícia, no caderno Anexo Ideias]

Empresas dos mais variados segmentos, instituições acadêmicas ou de saúde, ONGs, sindicatos, até algumas agremiações desportivas, vêm aprendendo a se comportar diante de crises que, como a pedra de Drummond, aparecem no meio do caminho. Dez entre dez consultores defendem que a prevenção é o melhor antídoto para tais situações inesperadas que, mais dia, menos dia, ganham as páginas da imprensa. “Não se pode viver sob a ilusão de que crises só acontecem com outras empresas. Ou que a crise encontre todos despreparados, inseguros e confusos”, alerta um destes manuais que, há coisa de uma década, tornaram-se verdadeiras bíblias corporativas, aconselhando o homem de negócios que se defronta com algum tipo de acidente de percurso a tomar a dianteira, atuar com transparência e abrir o jogo para a mídia. Atitudes firmes em momentos de crise ajudam a transmitir ao público uma percepção elevada sobre aquela organização. “Inúmeros são os casos em que, mesmo diante de acontecimentos que muitos poderiam considerar catastróficos, seus agentes conseguiram elucidar os fatos e revertê-los de forma favorável ao fortalecimento de suas imagens”, ressalta o publicitário Sérgio Diniz.

Todo esse preâmbulo vem para amparar a suspeita de que, baseado na mina de ilicitudes escavada pelos jornais no Congresso desde o início de 2009, e na reação desnorteada das suas principais lideranças, os políticos brasileiros ainda não têm seu manual de crise. Ou como entender, se não atribuindo à total falta de preparo para lidar com a emergência do cidadão na sociedade moderna, que um deputado cara-de-pau tenha reconhecido que se lixa para a opinião pública? Ou que, nos últimos dias, o coronel José Sarney tenha repetido o discurso redundante de que a crise no Senado é culpa da imprensa, eximindo-se de qualquer responsabilidade sobre a dúzia de acusações a seu respeito que a mídia trouxe à tona (e que não cabe repetir aqui)? Não, ele não tem culpa de nada, jamais cometeu “algo que o desabonasse”, as denúncias são “levianas”, sua vida é “ilibada”, seu passado é “coerente” e seria uma injustiça processá-lo baseado “em recorte de jornal”. (O trololó, pronunciado na quarta-feira, convenceu o Conselho de Ética do Senado, que arquivou sem demora quatro ações contra “seu” coronel.)

Sobre o papel da imprensa no “caso Sarney”, talvez a ressalva que se possa fazer é que os grandes jornais custaram a “apostar nesta pauta”, como se diz em redações. Nesta e nas que a precederam, durante o ano, como a da farra das passagens aéreas, cometida há séculos sob o nariz de repórteres que cobrem Brasília sem que um deles ousasse se lançar em uma investigação acurada a respeito de tantos desvios e desvarios. O eleitor/contribuinte/cidadão tem, sim, o direito supremo de ser informado com o máximo rigor jornalístico sobre as aventuras dos políticos que elege e sobre malversações (tão frequentes!) com o uso de dinheiro público. A imprensa sem mordaça – como a que tentou impor, pela via da Justiça, o filho do coronel, em ação que proíbe o jornal O Estado de S. Paulo de noticiar uma operação que apura irregularidades contra ele – é condição basilar de uma nação democrática. Sugere-se, por fim, que os consultores de comunicação do Senado Federal (devem ser muitos…) expliquem isso para o coronel e montem de uma vez por todas um manual de crise para que os próximos detentores do cargo saibam reagir adequadamente quando a imprensa lhes bater na porta.