(Letícia Caroline. Artigo produzido em 2008 para a disciplina de Redação VI)
Pergunta insólita essa, não? Talvez renda uma monografia, ou quem sabe um mestrado, ou para os interessados até mesmo uma tese de doutorado. Eu, particularmente, não sei se jornalismo é literatura. A única certeza que tenho é que o jornalismo com pintadas de literatura fica muito mais interessante. E que sem esse tempero, a arte de produzir matérias e reportagens fica tediosa e sem gosto, afastando, a cada publicação, seus leitores.
O jornalismo ainda busca a verdade e a imparcialidade, em uma corrida constante para obter o fato no instante em que ele acontece. Adorno me faz pensar sobre o tema e entender da onde vem essa obsessão pelo fato “nu e cru”, desprovido de qualquer interpretação ou análise. Já em 1950, o teórico criticava o fazer científico, aquele tipo de fazer ciência que se dava através de um modo rígido e sem flexibilidade, baseado no positivismo, ou seja, em busca da objetividade, da imparcialidade e da verdade. Ora, veja só! Não temos aqui uma certa semelhança? E foi a partir daí, que Adorno começou a defesa pelo “ensaio como forma”, em favor de uma liberdade maior ao pesquisar e dissertar sobre determinado objeto.
Se cada escolha que fazemos por fontes e matérias, angulações e pontos de vista, já mudam o rumo da reportagem, por que tirar toda a emoção, por que enxugar toda e qualquer gordura que, teoricamente, serve para cansar o leitor? É o que Castro e Galeano (2002, p. 31) argumentam”: “A vocação da notícia é representar o referente, o que torna a notícia, em princípio, verificável. Ao exigir-se do jornalista o uso da terceira pessoa que garantiria formalmente a impessoalidade do discurso, tem-se como resultado um discurso esvaziado, que acaba por ocultar o processo social que possibilitou a notícia”.
Sim, sou uma apaixonada pela literatura. E como jornalista acredito ser impossível abandonarmos toda nossa carga de leitura e experiências literárias no momento da escrita. Mesmo que o editor corte, mesmo que o chefe brigue, mas sempre terá uma descrição de local ou personagem, sempre existirá uma análise mais minuciosa dessa ou daquela fonte. É claro que algumas matérias não permitirão tão luxo. Mas o que custa tentar lá de vez em quando? Neila Bianchin (1997, p. 66) explica bem a separação entre jornalismo e literatura:
Assim é que, embora o jornalismo e a literatura partam de um núcleo comum que é a narrativa e utilizem o mesmo instrumento para se constituir, a linguagem, cada discurso forma um gênero diferente. O fato de caminharem lado a lado faz com que um influencie o outro a ponto de, em alguns momentos, acontecerem mesclas de técnicas discursivas que podem enriquecer o texto. Tanto estas ‘misturas’ são verdadeiras que deram origem a outros gêneros como a crônica, por exemplo, que já consolidou seu espaço.
É, quem sabe um mestrado ou uma tese de doutorado. Jornalismo e literatura formam uma dupla, que gera discussão para a vida inteira. Quem sabe um dia eles se separem de vez, ou até resolvam se juntar definitivamente.
Referências:
ADORNO, Theodor. Notas de literatura I. São Paulo: 34, 2003.
SATO, Nanami. Jornalismo, literatura e representação. In. CASTRO, Gustavo de; GALEANO, Alex (org). Jornalismo e Literatura – A sedução da palavra. São Paulo: Escrituras, 2002.
BIANCHIN, Neila. Romance-Reportagem - onde a semelhança não é mera coincidência. Florianópolis:UFSC, 1997.