(Resenha escrita pela estudante de Jornalismo Lorena Trindade, sobre o texto “Ética e Comunicação”, de Mário Ernesto Humberg)
Quando, no século 20, aparentemente, tudo o que poderia ter acontecido, aconteceu, era hora de repensar a forma com que o ser humano e suas organizações conviviam. A busca da qualidade de vida para atuais e futuras gerações e o sensível avanço de tecnologias na área da informação e comunicação culminou em discussões sobre valores. Por volta de 1960-70, movimentos dos jovens na luta pela liberdade, proteção do meio ambiente, fortalecimento das organizações não-governamentais (entre outros fatores), ao lado do avanço da tecnologia – que permitia transmissão e conhecimento, cada vez mais rápidos, de organizações, pessoas e instituições -, colocavam em voga os valores do homem, ligados à religião ou à política. Nesse período, o conceito de ética foi um dos valores ascendentes e a discussão sobre o que ela representa perdura até hoje.
O Aurélio define ética como “estudo dos juízos de apreciação que se referem à conduta humana suscetível de qualificação do ponto de vista do bem e do mal (…)”. Não há como segmentar ética. O conceito está presente nas convicções pessoais, nas comunidades, nas profissões e nas instituições. É parte da filosofia e se confunde com a moral. Mario Ernesto Humberg, presidente da CL-A Comunicações, afirma que, para os fins com que usamos esse conceito, seria mais correto falar de moral, que representa, ainda de acordo com o Aurélio, o “conjunto de regras de conduta consideradas como válidas (…)”. A escolha pelo primeiro conceito se deve à conotação religiosa que moral carrega, enquanto a ética está muito mais passível à reflexão de valores universais. “Assim, fala-se comumente em ética empresarial ou organizacional, ética na política, ética no trabalho etc. referindo-se ao comportamento esperado das pessoas e instituições”, afirma Humberg.
A questão central do texto é a ética exercida pelos profissionais de imprensa, sejam eles funcionários de uma empresa de comunicação (no jornalismo diário, independentemente da mídia) ou assessores de comunicação de um grande grupo. Esses profissionais, frequentemente, se veem diante de conflitos entre a ética da empresa e a ética pessoal. Um dos momentos cruciais desse “júri particular” é a divulgação. O jornalista tem como princípio a divulgação da verdade. Mesmo que essa “verdade” possa ser questionada, o processo de comunicação é não-ético quando baseado em inverdades, quando se utiliza desse recurso para manipular a opinião dos receptores da informação ou quando o jornalismo age como detetive e aponta os culpados antes mesmo da investigação – até a dos próprios órgãos responsáveis. “[...] a ética na comunicação, como em outras atividades, depende essencialmente dos valores definidos pela organização e pelo responsável pelo processo” (Humberg).
Antes de orientar funcionários quanto à ética e valores, as instituições precisam definir seus valores básicos e, mais que isso, praticá-los. Esse processo deve ocorrer do cargo mais alto (gestores e diretores) até chegar aos funcionários. De acordo com Humberg, no Brasil, pôr esses “mandamentos” éticos em prática é uma tarefa difícil. Isso porque existe uma mítica tradição brasileira a qual consiste em burlar a lei e os direitos de terceiros. Assim, uma empresa deve elaborar programas e códigos de ética ou de conduta tomando alguns cuidados para que não se tornem ideias inertes em um papel armazenado no arquivo morto. Mesmo que a instituição tenha algum documento dessa ordem, é necessário que cada funcionário defina seus próprios valores e procedimentos.
É possível trabalhar com pessoas e organizações que têm valores substancialmente diferentes dos nossos? Para mim, esta é a grande questão do texto. Assessores, ligados a organizações ou profissionais, estão passíveis do questionamento ético durante todo o tempo. A diferença entre o jornalista de redação e o de assessoria é que o primeiro está atrelado aos valores do veículo em que trabalha (jornal, revista ou TV), já no segundo caso, mesmo que haja valores da empresa, esses são diferentes e o profissional acaba tendo de se adequar a cada um deles. Ou seja: para a empresa, há uma ética para cada tipo de público. Uma para lidar com os funcionários, outra para lidar com o mercado, outra para tratar de interesses políticos etc. A partir daí, o assessor também modula os seus valores e convicções. Não necessariamente aqueles valores passam a ser os dele, no entanto, enquanto representante da instituição, ele precisa se “vestir” daquela forma.
Se os valores da empresa se confrontam com o de qualquer profissional – não só de comunicação -, é importante que o funcionário saiba julgar se precisa se sujeitar e negar suas crenças, para agradar e se ajustar a eventuais desvios na conduta de uma organização.
”O procedimento ético deveria caracterizar todas as pessoas e organizações que querem ser respeitáveis e socialmente aceitas, independente de sua atividade”.
(Humberg)