Síntese crítica do texto “A comunicação e política de negócios das empresas”, de Miguel Jorge, do livro “Comunicação Empresarial – Estratégias de organizações vencedoras”
A própria carreira de Miguel Jorge pode servir de benchmarking para muita gente: trata-se do primeiro caso de um jornalista de “meio” – ele era diretor de redação d’O Estado de São Paulo – que abandona a sua função, assume o setor de comunicação de uma grande empresa, e mais tarde acaba “abraçando a causa” e se tornando executivo. A experiência que ele teve na Autolatina e no banco Santander, principalmente, demonstram que jornalistas têm, sim, potencial para tocar os negócios de megacorporações, e que podem saber bem como aliar a função da comunicação aos objetivos comerciais e corporativos.
A primeira experiência de Miguel Jorge fora de uma redação se deu na Autolatina, joint-venture entre Volkswagen e Ford no Brasil e na Argentina. Tratava-se de uma nova potência industrial e de mercado, derivada da junção de empresas com culturas corporativas diametralmente diferentes – a Volks, de matriz alemã, e a Ford, norte-americana. Como comunicar as visões de um espectro tão grande de diferentes atores, ao público em geral, às entidades governamentais e aos seus próprios funcionários? Miguel Jorge relata que a função vital da comunicação na Autolatina foi, principalmente, viabilizar o diálogo na interface da empresa e do governo, em todas as suas instâncias. “A comunicação, em seu sentido mais amplo, tornou-se o insumo estratégico em momentos cruciais da indústria automobilística, não só como importante ferramenta acessória para a negociação de seus interesses junto aos governos, mas também como fator principal para explicá-los – e até legitimá-los – junto à sociedade”, explica Miguel Jorge.
Os anos que se seguiram – os do começo da década de 90 – foram marcados pela abertura do mercado nacional às importações, o que acarretou uma mudança profunda na legislação da área e um impacto importante na maneira como se organizava o mercado automotivo brasileiro. O setor de comunicação da Autolatina, comandado por Jorge, cuidou de cada um dos comunicados emitidos pela empresa, que retratavam os interesses da Autolatina e as salvaguardas às empresas nacionais que a empresa desejava. Coube também ao setor informar a sociedade dos interesses da corporação, e preparar os funcionários para o que não se desejava que acontecesse: o risco de que as coisas não dessem certo. Os funcionários tinham de estar conscientes de que era necessário produzir carros com mais qualidade e num processo mais barato, e que, de uma maneira ou outra, seus empregos estavam em risco. Na interação com a imprensa, cabe destacar a realização de workshops organizados pela Autolatina para explicar a jornalistas econômicos e formadores de opinião as vantagens do regime automotivo.