Especialistas destacam, por exemplo, que crimes na classe média ganham mais destaque embora afro-descendentes jovens sejam as principais vítimas da violência.
Embora o grau com que se apresenta varie enormemente em todo o mundo, a violência não é uma particularidade do Brasil e constitui um problema global. Para além do número, da gravidade e da evolução dos crimes em si, em tal cenário, torna-se fundamental o debate sobre o que está sendo noticiado e como está sendo noticiado – um reflexo parcial da própria sociedade que pode atenuar ou reforçar tendências. Justamente para discutir essas questões, jornalistas e acadêmicos nacionais e internacionais se reuniram com estudantes na manhã de hoje durante o Seminário Internacional de Mídia e Violência, realizado no Fórum de Ciência e Cultura da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Segundo Fernando Molica, diretor da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI) e colunista do jornal O Dia, o Brasil é um país violento, mas antes a sociedade se via de forma mais harmônica – o crime surgia como um elemento externo que quebrava essa harmonia.
Tal opinião tem como base o trabalho de organização, por ele conduzido, do livro “50 anos de crimes”, uma parceria da ABRAJI com a editora Record, no qual analisou os tipos de crimes que ocorriam no passado e a cobertura jornalística dos mesmos à época comparando-os com o visto atualmente.
“O criminoso era entendido como o ‘inimigo público’, e os jornais se concentravam nesse personagem. Com o passar do tempo, as cidades vão ficando mais violentas, há o período de ditadura. Os crimes ganham mais complexidade e também uma cobertura mais contextualizada”, afirmou o jornalista.
Os atos criminosos vão, portanto, segundo Molica, ganhando novos formatos, como os “esquadrões da morte” e os “comandos vermelhos” – e, no caso do Rio de Janeiro, o crime chega também à zona sul da cidade (região de maior renda per capita). O jornalista lembrou uma reportagem dos anos 80 que trazia a disputa de dois bandidos pelo comando do morro Dona Marta, no bairro de Botafogo, Rio de Janeiro. “Foi criado praticamente um ‘fla-flu’, ou seja, os jornais fizeram entrevistas com os dois bandidos e traçaram perfis de ambos”, disse.
Entretanto, ao longo dos anos, houve uma deterioração do jornalismo policial. Paralelamente, ele explicou que a complexidade e o aumento dos crimes foram contribuindo para que aumentasse o desespero da sociedade como um todo, que se tornou, de certa forma, “histérica” – a ponto de a expressão “direitos humanos” eventualmente adquirir um tom pejorativo aos olhos da maior parte da opinião pública.
Mesmo assim, segundo Molica, durante essas cinco décadas, o jornalismo melhorou. “A polícia deixou de ser a única fonte e as reportagens passaram a contextualizar o crime”, disse. Por outro lado, ele destacou que considera necessário que o jornalista deixe de lado a cobertura de polícia e passe a se dedicar à Segurança Pública. “Embora estejamos melhorando, é preciso estabelecer metas, assim como é feito, por exemplo, em economia. Deveríamos saber a evolução das taxas de criminalidade, para sermos capazes de mensurar e avaliar realmente se houve ou não melhora na questão de Segurança Pública durante um governo. Para mim esse é um dos grandes desafios da atualidade”, completou.
Criminalidade fora do Brasil
Para mostrar que realmente, a violência não é exclusividade do Rio de Janeiro, tampouco do Brasil, houve a participação de especialistas estrangeiros. Michel Labrecque, jornalista canadense da Radio-Canadá, lembrou que embora muitas pessoas tenham a idéia de que não há violência no Canadá, isto é um erro. “Realmente nossos índices são baixos estatisticamente, por exemplo, em 2007 houve 60 mortes por arma de fogo, o que representa uma criminalidade de 2% por mil habitantes, menos da metade do registrado nos EUA”, disse. Mesmo assim, Michel afirmou que os canadenses se preocupam com o país, acreditando que nos últimos tempos está mais violento.
Os índices baixos de criminalidade, entretanto, foram fruto de mudanças drásticas, principalmente, na polícia. Segundo o jornalista, muitas cidades têm polícia comunitária e vários comandantes da polícia são graduados, por exemplo, em Psicologia.
Outro ponto importante para alterar esses índices, segundo Michel, foi o combate à corrupção que se intensificou com coberturas jornalísticas nos 60, 70 e 80.
Hoje, porém, há regiões que apresentam um aumento significativo da pobreza e um alto número de imigrantes, que acabam por ser caracterizados pela mídia como violentos. “Nós sabemos que não se pode generalizar, temos que encontrar um meio termo”, ressaltou.
Ele destacou, ainda, que a mídia pode atuar de forma positiva ou negativa no que se refere à violência. “Há momentos em que o uso de câmeras e microfones pode atuar como um incentivo para demonstração de violência. Por outro lado, há situações onde acaba agindo como moderador. Mais uma vez, é preciso encontrar um meio termo”, ressaltou.
O moderador do evento, Guilherme Canela, que coordena a área de Comunicação e Informação do Escritório da UNESCO no Brasil, lembrou do caso de Diadema, São Paulo, no qual a mídia soube usar seu poder de forma positiva. “As denúncias de abusos por parte da polícia foram fundamentais para a redução das taxas de violência na cidade”, disse.
Pobreza e crime
Segundo Paulo Vaz, professor de pós-graduação da Escola de Comunicação da UFRJ e pesquisador do CNPq, no passado, a sociedade entendia que a causa do crime era a pobreza. Entretanto, ele disse que hoje a pobreza funciona como um marcador de risco.
“A idéia de rotina segura tornou-se uma espécie de valor maior. Porém, ela pode ameaçar outros valores como ‘liberdade’ e ‘igualdade’, ou seja, em busca de uma rotina segura certos grupos são declarados ‘não-humanos’ ou ‘não-tão humanos’”, afirmou o professor, lembrando também que antes o crime não era visto como uma questão pública.
Com relação à cobertura jornalística, o especialista questionou até que ponto o jornalismo vem contextualizando as reportagens. “Contextualizar é recordar casos antigos?”, indagou.
Sobre as razões da criminalidade, Paulo lembrou que na década de 80 construiu-se uma explicação hegemônica: há crime porque as pessoas não têm oportunidades de ascensão social. Somando-se a isso, as prisões não eram (e ainda não são) adequadas.
Já o discurso atual, na opinião do professor, baseia-se em duas vertentes: (1) na necessidade de leis mais rigorosas, de policiais em maiores números, menos corruptos e dispostos ao sacrifício e de prisões mais capazes de conter riscos; e (2) na associação entre crime e tráfico, o que responsabiliza moralmente os consumidores.
Assim, ele disse que a explicação da atualidade se resume em: “se não houvesse imoralidade – corrupção e consumo de drogas –, não haveria sofrimento”.
Todas essas questões são também, segundo o professor, refletidas nas notícias. Ele exemplificou mostrando que hoje todas as reportagens sobre crimes trazem a informação: o crime aconteceu a determinados metros de uma cabine policial. “Subentende-se desse discurso que se houvesse mais polícia, não aconteceria o crime”, explicou.
Há ainda leads (primeiro parágrafo de uma notícia) que trazem informações como: “Tiroteio no Salgueiro provoca pânico na Tijuca”. Nessa frase, segundo Paulo, não é exposto o lado do morador. “Será que quem mora lá não tem medo?”, destacou.
Desta forma, o professor considerou que atribuir apenas à imoralidade e ao consumo de drogas a culpa da violência é simplificar o problema. “Isso acaba impedindo que haja discussão. Por exemplo, será que a droga é o problema (por tornar os sujeitos violentos mediante alterações psíquicas) ou a questão legal é que é o problema? O debate sobre a legalização das drogas, por exemplo, não é explorado”, disse.
Diferenças da violência
O moderador do evento, Guilherme Canela, lembrou algumas outras questões que estão envolvidas no assunto mídia e violência. “Por exemplo, não se pode falar de violência como algo que atinge a todos de forma igual. Temos que admitir que afro-descendentes entre 15 e 24 anos de idade têm muito mais chances de serem vítimas do que os outros”, disse.
Ele chamou atenção também para questões ideológicas que estão por trás das matérias jornalísticas: “enquanto o adolescente do morro é chamado de ‘menor’, a adolescente de classe média não é designada assim. É chamada de ‘adolescente’”, afirmou. Na opinião de Canela, matérias sobre crimes, mesmo que bem contextualizadas, não têm grande utilidade, sendo mais importantes reportagens sobre Segurança Pública.
Fernando Molica, por sua vez, lembrou que um colega jornalista durante uma apresentação mostrou as diferenças de espaço na mídia dado a norte-americanos e indianos. “Para que uma notícia onde as vítimas de violência são indianos ganhe espaço similar ao de quatro americanos, é necessário que haja, por exemplo, um acidente com 4.000 indianos”, destacou. Ele fez um paralelo com a situação do Rio de Janeiro, onde crimes que acontecem na Zona Sul ganham destaque muito maior na mídia do que os outros.
Com ampla experiência na cobertura de conflitos armado, Steven Salisbury, jornalista norte-americano freelance do New York Times e do Wall Street Journal, ressaltou a importância de se tentar ouvir os vários lados envolvidos, sejam eles guerrilheiros, paramilitares ou os governos. “É fundamental entender o contexto da localidade estabelecer uma conexão humana com os entrevistados para que se possa fazer uma (boa) cobertura jornalística”, pontuou.
Ele ressaltou também que crimes em favelas ou em comunidades são situações perigosas e que requerem muito cuidado por parte do jornalista. “É preciso ter paixão por aquilo que fazemos, se você morre não é nada glorioso”, concluiu.
Fonte: Agência Notisa