O cenário, um ônibus urbano qualquer. A mulher, em pé, diz à filha que não tem dinheiro para pagar mais “isso”. Minutos depois, os 40 passageiros descobrem que o “isso” é um novo neto a caminho… Sabe-se que a moça, chamada Andréa, está desempregada e não é casada. A mulher passa sermão na filha, sob olhares curiosos, alguns condenatórios, alguns condescendentes, poucos indiferentes. A mulher quer desabafar – e sorri, entre constrangida e cúmplice: “Esses filhos, a gente dá a vida a eles e eles a desperdiçam em uma noite de idiotice…”

Vários outros telefones tocam. Sabe-se que a menina de seus 15 ou 16 anos ainda não recebeu a pensão alimentícia do pai e ameaça denunciá-lo. Em outro momento, um homem tenta, desanimado, vender “a melhor casa da melhor rua do bairro, por um preço camarada”. O rapaz reclama do mecânico que o deixou a pé, a senhora marca consulta médica, a jovem sussurra juras de amor ao namorado, que se chama Joelson, é motoboy e, pelo jeito, alvoroçado no trânsito, tanta foi a insistência dela para que tivesse cuidado.

Além de nos invadir onde quer que estejamos, no toalete ou na beira da praia, o celular nos desnuda. Falamos o tempo todo com várias pessoas, confessamos fraquezas, fechamos negócios, brigamos com os filhos e adulamos os netos.

A mulher admite que se sente atraída pelo colega de trabalho – mesmo sendo casada –, o homem se vangloria de suas conquistas, as crianças fornecem informações de sua vida e até o velhinho descolado conecta-se via celular com seus amigos de truco.

Em pouco tempo, todos sabem da vida de todos. O chamado “grande irmão” há muito saiu das páginas dos contos de ficção científica. Aparentemente, isso causa estranho prazer – não é por outro motivo que os reality shows têm audiências recordes. Recentemente, a polícia gaúcha instalou câmeras em praia do Rio Grande do Sul e passou a disponibilizar as imagens pela internet – o que causou uma avalanche de acessos, especialmente de jovens querendo ver o sexo oposto.

A desgastante frase “sorria, você está sendo filmado” é fichinha. Estamos virando uma massa disforme, de repetitivos comportamentos e alienados gestos. Um grupo sem alma, sem valores, sem a vida verdadeira, a pulsar em suas veias abertas.