Eu escrevo porque o verbo me açoita até eu vomitar… Não há esse escrever sem nexo, de jogar conversa fora. Há um escrever de alma na ponta dos dedos, que isso, sim, traduz a essência – e reduz a insustentável ardência do ser.
Por isso, a palavra vã machuca tanto. Seja numa tribuna política, jurídica ou festiva, seja numa coluna de jornal, especialmente na tela da TV, a palavra proferida sem a responsabilidade do dizer é como um castelo de areia, que pode ser uma obra de arte, mas que some em segundos, engolido por uma onda qualquer.
O silêncio é, muitas vezes, muitíssimo mais gritante que os palavrões irritados, que os gritos incontidos, que a fúria arremessada sobre o outro.
O silêncio cala as dores, mas as faz rasgarem o íntimo. Talvez esse chegar-se, em extremo, ao fundo do poço, talvez esse silêncio suicida, seja exatamente o que nos faça acordar, outra vez, para a vida.
Incomoda, portanto, a vazia balbúrdia de quem não se respeita – e se lança às palavras sem a trégua da reflexão, sem qualquer noção do ser. Do fazer. Do realizar e produzir. Do somar.
Linhas e parágrafos enormes para dizer que não há inspiração, que não se sabe sobre o que escrever, que o filho ao lado brinca com a caneta ou a mulher chama para jantar…
Quero muito mais do verbo – quero a verve solta, breve, mas consistente, ácida às vezes. Quero quintanear pela vida, caetanear… Quero os dizeres sem tempo, escreveres sem espaços – e não as tais insanas mediocridades que a inspiração limita.
Escrever, em verdade, não é um hobby, um passar de tempo. É a responsabilidade dos valores, culturas, identidades e riquezas artísticas passeando ágeis, pelas pontas dos dedos – assumindo contextos, refletindo, colorindo temas e conexões de vida.
Há que se ter o que dizer, sublinha sempre Moacyr Scliar – que o escrever é catártica viagem ao centro de nós mesmos. No caminho de volta, o registro desse momento é a garantia de que o que enriquece, mesmo, é essa doce partilha.