[Crônica quinzenal da Ana Ribas Diefenthaeler, publicada dia 29 de maio na página 3 do jornal A Notícia, de Joinville]
Há momentos em que a alma grita, mas a palavra cala. O mundo ao redor se tinge de cinza – e a palavra segue silente. A chuva interior provoca, rios atravessam a garganta, arranham, maltratam, congestionam o olhar… A palavra some. A emoção força as fibras do coração, a confusão de sentimentos se funde no cérebro, que não ousa tentar organizar o caos. E a palavra se esconde.
Lya Luft fala, em algum de seus livros, da letal incomunicabilidade de certas emoções – que, não raramente, rompe relações de décadas, esfria amizades de toda uma vida e, o que é muito pior, divorcia a pessoa dela própria. Não, não se trata da depressão, a palavra da moda – ao menos não na forma em que o mal da modernidade vem sendo conceituado.
O silêncio a que me refiro existe por essência. Acredito que atormentou de Freud a Simone, a amada de Jean-Paul, de John Lennon a Churchil, de Dali a Alice Cooper. Certamente foi presença marcante na poesia de Leminski e Florbela Espanca, na trajetória musical de Renato Russo, Cazuza, Elis, Raul Seixas, Janis, Janis.
Este é, pois, o silêncio da impossibilidade de reagir diante de certas dificuldades – sejam externas ou, as piores, as fabricadas por nós mesmos. É uma espécie de luto sem morte, de morte sem adeus. Uma verdadeira tragédia que desilumina e isola. Que encontra obstáculos aparentemente intransponíveis onde antes havia tanta luz.
A palavra sangra, solitária, aprisionada pela alma em chamas. Há que se aprender a conviver com esse verdadeiro colapso emocional, resgatando em nosso léxico interior a melhor tradução do que parece tão intrincado e difícil de desenlear. As ferramentas disponíveis para isso também não são fáceis de utilizar – vão do reconhecer a insustentável leveza do ser a resgatar-se dos despenhadeiros da mediocridade que se encerra em fórmulas prontas do viver – há tantas delas nas prateleiras das livrarias, nas tardes de tevê…
Resgatar a comunicação com o exterior pode ser árduo desafio de toda uma vida. Pode ser até o que dá sentido a ela. À vida.